Palestra aborda o uso de bebidas alcoólicas por indígenas do Amazonas

Aprofundar a análise das diferenças entre as ações de prevenção de doenças e de promoção da saúde, tendo como fio condutor o uso do álcool por populações indígenas e a possibilidade de rever as ações de promoção da saúde no contexto indígena. Esta foi a proposta da palestra Da prevenção de doenças à promoção da saúde: reflexões a partir da questão do uso de bebidas alcoólicas por populações indígenas, ministrada pelo pesquisador do Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane (CPqLMD/Fiocruz Amazônia) Maximiliano Loiola Ponte de Souza, no 5º Seminário de Prevenção do Uso de Drogas, promovido pela Secretaria de de Justiça e Direitos Humanos do Amazonas.
O pesquisador apresentou reflexões sobre as medidas de prevenção e de promoção a partir do uso de álcool, advindas dos estudos que compuseram a sua tese de doutorado em saúde coletiva pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Ele evidenciou a dificuldade de adequação das estratégias de prevenção tidas como efetivas para áreas urbanas tomando como ponto de partida as experiências obtidas nas pesquisas realizadas por alguns estudiosos na região do Alto Rio Negro, como Paulo Buss, Esther Langdon, dentre outros. Segundo Souza, foram pensadas diversas estratégias para limitar o consumo de álcool nas comunidades indígenas e, dessa forma, evitar os agravos que seu uso traz para o bem estar da população. Porém, percebeu-se grande dificuldade de implementá-las, devido às especificidades de cada lugar, principalmente no interior das terras indígenas onde há grande produção de caxiri, a bebida tradicional, fruto do labor da mulher que mostra o zelo que ela tem por sua roça de mandioca.

Em Iauarete, uma localidade indígena situada no Alto Rio Negro, situada na fronteira do Brasil com a Colômbia, as festas são pontos de livre acesso ao caxiri, visto que sua grande disponibilidade traz prestígio para as lideranças. Impedir que elas aconteçam vai de encontro aos ideais de autonomia e independência, por meio dos quais os grupos indígenas buscam reger-se, fazendo do consumo de álcool um meio de reforçar os laços de solidariedade e gerenciar conflitos. Nestas áreas nem mesmo a delimitação do consumo por idade mínima pode ser aplicada, pois para o indígena a idade cronobiológica não é levada em conta, visto que os rituais de passagem da infância para a vida adulta estão em desuso em diversos lugares.

Para refletir a questão da promoção à saúde, Souza apresentou um conjunto de quatro princípios que deveriam pautar estratégias, identificados pela antropóloga Esther Langdon, em 2005, a partir da revisão da literatura existente sobre o tema. O primeiro princípio é evitar utilizar a categoria “alcoolismo”, por estar associado a uma doença individual, não sendo apropriada para utilizar em determinados contextos sócioculturais. Apreender o contexto no qual se faz o uso de bebidas alcoólicas é o segundo princípio, permitindo compreender quando beber se torna um problema e identificar, em cenários específicos, como as condições de vida contemporânea influenciam no modo de beber dos grupos indígenas.

O terceiro princípio trata de envolver a comunidade na qual se pretende intervir em todas as etapas previstas, destacando a valorização do conhecimento popular e da participação social, construindo, assim, uma forma pactuada de estratégias de intervenção e evitando ir de encontro ao que estabelece a cultura local. Além de valorizar o conhecimento nativo, este princípio também prevê incrementar a capacidade dos grupos sociais para que estes possam traçar seus próprios caminhos de promoção à saúde. Por fim, o último princípio diz que, para lidar com os problemas do uso de álcool por indígenas, as ações não devem focar apenas as questões diretamente relacionadas ao uso das bebidas alcoólicas, mas com os fatores que os levam a isso, primando pela construção de uma sobrevivência saudável e uma identidade positiva.

Ao final, Souza considerou que lidar com uma população culturalmente diferenciada é um desafio que coloca em xeque um conjunto de saberes acumulados, sendo necessário fazer constantes questionamentos a respeito da adaptabilidade cultural, ética e sanitária de determinadas estratégias de intervenção, a partir do diálogo com quem se pretende atuar, reconhecendo-o como sujeitos autônomos e capazes de construir, em parceria, alternativas para os problemas que lhes afligem.
Fonte:Agência Fiocruz de Notícias