Jovem viciado em crack estrangula namorada até a morte

RIO DE JANEIRO – O crime que resultou na morte da figurante de TV Bárbara Chamun Calazans Laino, de 18 anos, dificilmente poderia ter sido evitado, segundo especialistas em dependentes químicos do crack, droga consumida pelo namorado da vítima, que morreu estrangulada na noite de sábado.

De acordo com o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os usuários da droga tendem a reagir de maneira por vezes exageradas e de forma descontrolada.

– Essa droga torna o usuário mais agressivo e impulsivo. A ação é mais veloz que o pensamento. Primeiro ele age, e só depois se dar conta do que fez, o que pode ser muito tarde, como neste caso.

Para Laranjeira dois fatores podem ter motivado o crime.

– Ou o rapaz estava persecutório, com a sensação de que as pessoas ao seu redor estariam tramando algo contra ele, ou foi pelo fato de estar mais agressivo pelo efeito da droga. No primeiro caso, ele teria cometido o crime para se defender. No segundo, uma simples discussão pode ter desencadeado a reação do rapaz.

A psiquiatra presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Analice Gigliotti, reforça a tese da inconsequência das ações de uma pessoa dependente de crack.

– O viciado é capaz de matar sem pensar nas consequências. A droga e a violência têm uma conexão muito íntima, que é responsável por diversas modalidades de crimes.

Vizinhos ficaram chocados

De acordo com a polícia, o músico Bruno Kligierman de Melo, de 26 anos, estava com a namorada Bárbara no apartamento dele, na Rua Ferreira Viana, no Flamengo (Zona Sul), quando matou a jovem por estrangulamento. Após o crime, o rapaz ligou para o pai, o produtor cultural Luiz Fernando Proa, contando o que fizera e ameaçar suicídio. O pai chamou a Polícia Militar e homens do 2º BPM (Botafogo) foram ao local prender o rapaz, que não resistiu.

Bruno morava, há cerca de cinco meses, no apartamento onde estava com a namorada.

O porteiro do edifício, que não quis ter o nome revelado, demonstrou surpresa com o crime.

– Não esperava que ele pudesse fazer isso. Era um rapaz tranquilo. No tempo em que morou aqui prédio nunca teve nenhuma reclamação contra ele.

Um vizinho de Bruno disse que ficou chocado ao chegar em casa e ver a movimentação policial.

– Não o conhecia, mas só por não ter ouvido falar nele aqui no prédio, já me causou estranheza o crime – contou o enfermeiro Tiago Barbosa

Na 5ª DP (Saúde), onde o caso foi registrado, que funcionava como central de flagrantes no sábado, o rapaz admitiu que fumou crack e teve uma discussão com Bárbara. No depoimento, o rapaz disse que não lembrava do que tinha acontecido em seu apartamento. Ele disse que dormiu e, depois de acordar, viu a namorada deitada no chão. Ao tentar acordá-la, teria constatado que ela estava morta.

Bruno está na carceiragem da Polinter, em Neves, São Gonçalo, na Região Metropolitana.

O corpo de Bárbara foi sepultado neste domingo no Cemitério São João Batista, em Botafogo (Zona Sul).

Pai de jovem assassino pede desculpas à família da vítima

Luiz Fernando Proa, pai de Bruno, revelou na delegacia que seu filho é dependente de diversos tipos de drogas, e contou também que, por mais de seis anos, luta para livrar o filho da dependência. O rapaz já teria passado por cinco internações em clínicas de tratamento de dependentes químicos. Na última vez Bruno ficou confinado por 13 dias em em Jacarepaguá (Zona Oeste).

Luiz Fernando pediu desculpas à família da vítima e fez críticas a política de tratamento ao dependente químico executada pelo estado. Segundo ele é um erro não obrigar os viciados a persistirem no tratamento.

– Todo viciado que se torna perigoso por causa da droga deveria ser mantido em tratamento para a defesa da própria sociedade. Eles colocam em risco a vida não só de desconhecidos, como dos próprios entes queridos – afirmou.

O pai do suspeito disse que a vítima era “um anjo na vida do filho”, pois era uma das pessoas que mais incentivava Bruno a livrar-se da dependência química.

– O anjo acabou virando vítima desta droga. Essa é uma demonstração do poder que o crack tem de transformar uma pessoa. Meu filho sempre foi uma pessoa boa e amada pelos amigos. Hoje ele se tornou um assassino por causa da droga –, lamentou Luiz Fernando.

Para Silvia Pontes, que comanda a Coordenadoria Especial de Prevenção à Dependência Química do município, não há como obrigar ninguém a se tratar.

– Não existe política pública que obrigue um viciado a fazer o tratamento. A adesão é voluntária
Autor:Caio de Menezes, Jornal do Brasil
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas