Para entidades, mudança deve vir com ação social

Para instituições ligadas ao combate às drogas, não basta propor penas alternativas. “É preciso perguntar o que será feito para monitorar os pequenos traficantes que não forem para a cadeia”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor da Unifesp e coordenador do Instituto Nacional de Políticas de Álcool e Drogas. “Teremos investimentos em projetos sociais para impedir que esse criminoso volte a vender drogas?”

Laranjeira afirma ainda que é necessário, sim, prender os bandidos. “Medidas como essa, de propor penas alternativas, normalmente são usadas pelo Estado para se livrar do problema e da superlotação dos presídios.” Segundo o professor, seria mais eficiente construir cadeias diferenciadas para pequenos traficantes.

A diretora executiva da Parceria Contra as Drogas, Marylin Tatton, defende que quem vende poucos gramas de maconha é tão culpado pela violência quanto os que financiam esse crime. “Ambos colaboram para que aumente o número de dependentes químicos e cresça o comércio ilegal de armas”, diz. “Em vez de abrandar a legislação, o governo poderia investir na prevenção.” Ela propõe que crianças moradoras de favelas recebam orientação pedagógica e assistência social para que não vejam no crime uma opção de crescimento financeiro.

Mesmo os que apoiam a mudança consideram que é preciso também elaborar ações sociais. “Realmente não faz sentido botar atrás das grades um moleque que negocia saquinhos de cocaína em uma esquina e será facilmente substituído”, afirma o doutor em Sociologia Jailson de Souza, coordenador-geral do Observatório de Favelas. “É preciso reabilitar esse garoto e evitar que outros jovens virem bandidos, oferecendo escolas de período integral na favela, equipamentos culturais e possibilidades de emprego.”

Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, é outro entusiasta da alteração. “Prender o pequeno o coloca em contato com o ambiente hostil das cadeias, onde é fácil se envolver com o crime organizado”, opina. “É mais produtivo e barato para o Estado inserir esse indivíduo em ações sociais que ajudam na recuperação.”
Autor:Filipe Vilicic-Estadão.com.br
Fonte: UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas