Craques da prevenção

Além de liberar substâncias que causam sensação de prazer, a prática constante de esporte é uma das principais formas de inclusão social. O taekwondo, por exemplo, é adotado no bairro Cânyon toda sexta-feira, com o objetivo de manter crianças e adolescentes longe da droga. Estudos de especialistas comprovam que seguir um programa esportivo também é importante para a recuperação de dependentes químicos Caxias do Sul – Educar as crianças hoje para não punir os homens amanhã.

A frase está afixada em um mural de uma sala do Núcleo de Capacitação do bairro Cânyon, onde toda sexta-feira são realizadas aulas de taekwondo. O esporte foi o meio escolhido na localidade como forma de prevenir e combater o uso das drogas. Os 50 mil dependentes de crack no Rio Grande do Sul, para citar somente uma das drogas responsáveis pela metade dos assassinatos em Caxias, justificam a preocupação.

Especialistas apontam que a prática do esporte como prevenção têm efeitos sociais e traz benefícios à saúde. Ou seja, ensina, por meio da disciplina, e libera substâncias que causam sensação de bem estar e prazer. Aqueles que trabalham com o assunto fogem do termo “ocupação”. Preferem enxergar o esporte como forma de inclusão.

– Nas populações mais carentes a criança de rua é normalmente um alvo mais fácil para entrar no mundo das drogas. Tem muito aliciador de menores, traficantes… Se ela está comprometida com um programa esportivo, fica mais protegida – explica o presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac.

Cozac esclarece que as drogas estão presentes em qualquer classe social e orienta os pais de que a prática esportiva deve ser prazerosa, para que não se transforme em uma atividade imposta e vire obrigação. Se necessário, a criança ou adolescente deve experimentar uma série de modalidades, até encontrar aquela com que mais se identifique. Para ele, os pais têm papel fundamental e devem acompanhar os filhos em campeonatos ou atividades do programa social.

A presidente da Comissão Municipal de Prevenção às Drogas do Rio, Silvia Pontes, enxerga o esporte como a principal ferramenta de prevenção às drogas, depois da família. No Rio ela promove palestras e campanhas contra a droga e vai ao encontro do jovem na rua. Ela própria é uma esportista. Remadora, usa o exemplo do atleta, que busca constantemente a superação dos seus limites, para convencer o jovem a nunca experimentar.

– O esporte é sinônimo de saúde e formação de caráter. Quem pratica esporte sente um cansaço prazeroso e as mesmas sensações que sentiria usando droga. O atleta aprendeu a ter limites e superar seus desafios. Ele sabe que não se pode vencer sempre e aprendeu a respeitar esses limites pela regra da competição – acredita.

No dia 4 de maio do ano passado Silvia organizou uma caminhada contra a marcha da legalização da maconha na praia de Copacabana. A Marcha do Rio em Defesa da Família reuniu centenas de pessoas, e teve enfoque no esporte como prevenção às drogas. Nas ruas, ela organiza frequentemente a Tenda da Prevenção. Uma equipe se instala em diversos pontos da cidade para distribuir panfletos contra a droga.

Tanto Silvia como Cozac concordam que a droga é concorrente do esporte nas regiões especialmente em que o tráfico está mais espalhado. Ambos defendem a importância da família na prevenção e transmissão de valores.

– O Hugo Peçanha é um dos principais judocas do Brasil e foi criado no Morro do Alemão. Quando criança, a mãe o levava todo dia para treinar. Se não fosse assim talvez ele tivesse se tornado um traficante – acredita Silvia, que também é bióloga e teve o pai uma vítima do alcoolismo.
Autor: Fernanda Fedrizzi.
OBID Fonte:Pioneiro.