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Hora do último cigarro

Lei Antifumo promete fechar o cerco contra adeptos do tabaco em Goiás. Estabelecimentos já se adequam

Antes símbolo de glamour e maturidade, o fumante é hoje má companhia para os politicamente corretos. Sinal de vigor e inteligência, a fumaça que sai das bocas se transformou em alerta de doença e falta de educação. Nunca o cigarro foi tão patrulhado.

O cerco está se fechando – inclusive em Goiânia. Na próxima quarta-feira, vereadores e agentes administrativos regulamentam a Lei Antifumo – importada para Goiás a partir de modelos aprovados no eixo São Paulo–Rio. Será o golpe derradeiro nos usuários que ainda reagiam contra a nicotina.

A era do Free Jazz, do “fumar Hollywood é sucesso” e “Carlton, um raro prazer” está sepultada. Na nova ordem global, o Ministério da Saúde deveria dizer que fumar pode ser uma péssima escolha para a imagem e bolso do fumante.

Em Goiânia, a Vigilância Sanitária tem multado estabelecimentos por meio da Lei municipal 8.811. Ela tipifica a ação incorreta de fumar nos espaços públicos. A multa de R$ 2 mil, porém, é fundamentada conforme o Código de Vigilância Sanitária Nacional. O vereador Bruno Peixoto (PMDB), autor da lei goianiense, afirma que a regulamentação de sua proposta na sede da Vigilância Sanitária marcará a luta contra o fumo na Capital. Com a aplicação da lei, o estabelecimento que permitir o cigarro terá que pagar multa de R$ 500 na primeira autuação.

Na reincidência, o valor é dobrado. Na terceira vez, ocorre interdição do bar. Bruno diz que 30% dos estabelecimentos já se adequaram à novidade.

A paranóia antifumo é tão séria que criou uma indústria cultural ao redor. Por ironia, esta mesma indústria fez o cigarro deixar as pessoas mais bonitas nas décadas anteriores, aos anos de 1990. O site www.euvouparardefumar.com, por exemplo, dá força para o fumante, mas não deixa de oferecer livros, programas de emagrecimento e cremes para sonhados dentes brancos. Tudo muito bem programado para que o cigarro seja pintado como demônio e renda algum lucro para a nascente indústria do mundo saudável.

A questão é séria, mas parar de fumar exige mais postura do que a compra dos bens desta indústria. O ex-fumante Ricardo Ferreira de Oliveira é exemplo de que para parar de fumar, basta interesse. Não fuma há mais de 20 anos. É a espécie que não cai mais nas armadilhas do hábito. “Cigarro é uma droga. Você chega a sonhar com ele”, fala.

E qual método usou para abandonar o hábito? Simples: marcou um dia, acordou e disse que não iria mais fumar. Não leu nenhum livro ou usou qualquer produto químico para substituir a nicotina. Simplesmente parou. “Fumava três carteiras por dia. Era uma loucura. Fui de opinião”, recorda. Para quem fumou dos 12 aos 35 anos, era mais do que certa a dependência perpétua. Ricardo tomou atitude e interrompeu a inércia. Esta é a regra número um defendida por Allen Carr, ex-fumante e autor do best seller O método fácil de parar de fumar (Editora Sextante, 219 páginas). O livro traz dicas que ajudaram muitas pessoas a abandonarem a tragada.

O dilema é aceitar o que diz Carr. Para começo de conversa, ele afirma que o fumante não deve parar de fumar enquanto lê o livro. Pior: pede para sequer diminuir a quantidade de cigarros. Espera convencer o dependente de que o cigarro é algo horrível e estúpido. Ao fim do livro, consegue em parte o intento. “Li o livro e consegui parar de fumar por dois anos. Mas acabei voltando. É culpa minha. Deveria ter seguido os conselhos do Carr, aqueles das últimas páginas”, diz o professor Alexandre Faria de Souza, 34. “O livro nos mostra os bastidores do hábito, por isso você toma nojo do cigarro. Parei para economizar, como Carr manda. Mas achei que conseguiria fumar só mais um cigarro e zerei o programa.”

Autor traz regras duras

As regras de Allen Carr, autor do best seller O método fácil de parar de fumar, são duras. “Não há substituto para a nicotina”, diz . Para ele, é preciso ensinar o cérebro a não depender do produto. Ou seja: quanto mais o fumante reforçar a tese de que cigarro é bom, mais ele estará apto a se manter dependente. “Não se deixe enganar: os cigarros criam o vazio; eles não o preenchem.”

O médico Antônio Luiz Almeida explica que os produtos que repoem a nicotina podem ser utilizados por determinados pacientes. “Negar esta possibilidade é algo absolutamente sem fundamento. Trata-se de forma de tratamento clássico, com grande histórico de resultados.”

Carr é contra. Não acredita que o uso de cigarros seja hábito, mas dependencia. “Sei de fumantes que largaram o cigarro, mas ficaram habituados com goma de mascar de nicotina”.

O método de Carr consiste em reforçar a “opinião” do fumante de que chegou a hora de abandonar o cigarro. Por isso, o autor sublinha atitudes racionais em detrimento de momentos radicais. A meta é fazer com que o dependente, em três semanas, alcance a “revelação”. E ela será conquistada com análises sistemáticas das perdas e ganhos que se têm ao usar nicotina.

O capítulo 40 do livro é o Santo Graal dos que resolveram ler a obra. “O último cigarro” traz ponderações seríssimas: “Depois de ter refletido sobre o momento certo, você está pronto para fumar aquele último cigarro. Antes de acendê-lo, verifique dois pontos: 1. Você tem certeza de que terá sucesso? 2. Você se sente triste e desanimado ou está entusiasmado com a perspectiva de alcançar algo maravilhoso?”. Carr é direto: “Se tiver alguma dúvida, releia o livro”.
Autor: Editoria Cidades
OBID Fonte: Diário da Manhã