Tratamento de viciados em crack é mais demorado do que o de outras drogas

“Pessoa precisa ser praticamente reconstruída. O tratamento de menores gira em torno de dois anos. Para os adultos, que já tinham uma personalidade antes, é mais fácil o tratamento”, diz especilaista

Pai do jovem músico Bruno Kligierman de Melo, de 26 anos, que matou no último sábado a estudante Bárbara Shamon Calazans, de 18, o produtor cultural Luiz Fernando Prôa queixou-se do discurso de que o viciado em drogas deve procurar ajuda por conta própria . Na ocasião, ele afirmou que se tivesse o poder de internar o filho a força, “o crime não teria acontecido”. Mas, quando é necessário internar um viciado?

Os especialistas afirmam que tal medida deve ser tomada quando há perda do controle da própria vida. De acordo com a chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Analice Gigliotti, quando o usuário oferece risco para si mesmo ou para terceiros é caso de internação. Isso acontece, por exemplo, quando a pessoa usa crack e vai dirigir. Além disso, se ela se torna violenta na rua com os traficantes, pode se tornar em casa também, com pessoas que ama.

O psiquiatra Jorge Jaber, especialista no tratamento de dependentes químicos, ressalta que é preciso pensar em internação quando a pessoa não consegue realizar suas funções, como a faculdade e o trabalho; em casos de acidentes, quedas; ou em situações de descontrole social. Jaber alerta, no entanto, que a família muitas vezes adia a internação tentando tratar sozinha o viciado:

– No caso da menina, por exemplo, que queria ajudar o Bruno. É uma ingenuidade achar que uma jovem de 18 anos vai conseguir ajudar alguém que está com uma doença tão grave. As pessoas não assimilaram que qualquer alteração no comportamento está associada ao funcionamento cerebral. No uso de drogas, há alterações em neurotransmissores e por isso é necessário tratamento médico e psicológico.

O especialista em dependência química e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), João Carlos Dias, ressalta que o viciado em crack chega a um ponto que não tem discernimento para entender o que é melhor para si.

– Não dá para a família chegar e falar “vamos conversar”. Ele precisa de atendimento imediato. Como o crack afeta vários sistemas e órgãos, em casos de crises, é preciso haver equipamentos de saúde que propiciem atendimento de emergência, muitas vezes involuntário.

Depois da internação, é preciso continuar o tratamento

Jaber explica que o tratamento do crack é mais demorado do que o de outras drogas porque o paciente chega muito deteriorado física e mentalmente. Segundo o psiquiatra, há perda de valores como compaixão e respeito:

– Essa pessoa precisa ser praticamente reconstruída. O tratamento de menores gira em torno de dois anos. Para os adultos, que já tinham uma personalidade antes, é mais fácil o tratamento.

De acordo com Jaber, em pessoas que têm o sincero desejo de se livrar do crack, a internação pode durar dois meses. Depois disso, o paciente está apto para ingressar em narcóticos anônimos e participar de reuniões diárias. Ele ressalta que nesse período é totalmente contraindicada a substituição de uma droga por outra mais fraca como forma de tratamento.

O psiquiatra João Carlos Dias esclarece que a desintoxicação é o inicio do tratamento. Mas, que, principalmente para as pessoas com baixas condições financeiras, é preciso que o governo crie uma rede de pós-tratamento que envolva atividades que desvencilhem o paciente da droga.
Fonte UNIAD:O Globo Online