Faltam leitos e atendimento adequado

Dependentes químicos

Os leitos para dependentes químicos mantidos pela Prefeitura foram desativados, prejudicando ainda mais o tratamento a usuários de drogas em Fortaleza. No segundo dia da série sobre a epidemia do crack, O POVO mostra que a omissão do poder público agrava ainda mais o problema

Os únicos leitos para dependentes químicos que a Prefeitura de Fortaleza mantinha em hospital geral foram desativados. As duas enfermarias, com seis leitos para homens e seis para mulheres, funcionavam no Hospital Nossa Senhora das Graças, no bairro Jacarecanga. Para lá, eram encaminhados os pacientes dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que precisavam de atendimento de urgência, como desintoxicação. “Senti falta de ter essa internação lá. Era importante. Tem crise de abstinência que é muito forte”, lembra um paciente do Caps da Barra do Ceará.

Segundo uma das coordenadoras de Saúde Mental da Prefeitura, Evelyne Bastos, os leitos foram desativados em agosto deste ano. “Tivemos uma série de dificuldades. Mas estamos negociando com outro hospital para abrir o serviço novamente”, diz, sem dar mais detalhes nem citar prazos. Ontem, O POVO mostrou que o consumo de crack é considerado uma epidemia em Fortaleza. A busca por tratamento aumentou, mas faltam leitos em hospitais e as vagas nas comunidades terapêuticas são disputadas.

“Estamos diante de uma questão de saúde pública seríssima e muito longe de uma solução”, resume a socióloga Rita Maria Monteiro, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre tratamento a usuários de drogas na Capital. `”É necessário construir centros públicos de atendimento”, sugere, acrescentando que esses locais deveriam funcionar nos mesmos moldes das clínicas particulares, com boa estrutura e equipe completa de profissionais.

Como não há centros do tipo em Fortaleza e os custos com clínicas particulares são altos (a média da diária é de R$ 180), as pessoas acabam recorrendo às comunidades terapêuticas, administradas, na sua maioria, por instituições religiosas. “O problema é que algumas dessas comunidades estão em desacordo com a lei”, denuncia. Uma portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamenta o funcionamento desses locais, determinando, por exemplo, que eles tenham profissionais da área de saúde para acompanhar os pacientes.

“Tem comunidades que baseiam todo o discurso na questão religiosa. Não tem um médico, um psiquiatra, um psicólogo, um enfermeiro. Imagine como ficam os pacientes numa crise de abstinência”, alerta a pesquisadora, acrescentado que falta fiscalização.

Apesar de algumas funcionarem sem a estrutura adequada, essas comunidades têm ajudado muitos pacientes a controlar a dependência química. “Quando cheguei aqui dentro pensei que não iria conseguir passar muito tempo. Mas já estou há sete meses”, conta o jovem de 18 anos, que experimentou o crack aos 15.

A fé em Deus é o que motiva o jovem a continuar lutando contra a droga. “Quando cheguei aqui sabia nem rezar o terço. Hoje, quando penso em desistir ou tenho algum problema vou pra capelinha daqui, converso com Nossa Senhora. O tratamento não é fácil, principalmente por causa da abstinência. É uma luta diária. Mas quero uma outra vida pra mim. Sair daqui, dar felicidade pra minha mãe”, diz. Ele sabe que causou muito sofrimento à família. “Passava de dois, três meses fora de casa, fumando (crack). Roubava, tirava as coisas dos outros. Pegava as coisas da minha mãe, dinheiro do meu pai, bicicleta do meu avô, um bocado de coisa.”

O POVO entrou em contato com a célula de Vigilância Sanitária do Município, mas foi informado de que apenas a gerente da célula, Francisca Miranda, poderia informar sobre a fiscalização nas comunidades terapêuticas de Fortaleza. Miranda está viajando e o número do celular dela não foi informado. Segundo a Vigilância Sanitária do Estado, a competência de fiscalizar esse serviço é do Município.

E-MAIS

> Durante muito tempo, o crack foi associado à pobreza e à marginalidade por ser a droga ilícita mais barata do mercado e pelos efeitos devastadores do uso (a pessoa fica magra, maltrapilha). Mas, de uns anos pra cá, a droga tem circulado também entre usuários de classe média.

> Na clínica Vila Serena, onde a diária custa R$ 180, cerca de 70% dos pacientes que estavam internados na semana passada eram usuários de crack. “Há uns cinco anos, as internações eram mais por álcool e cocaína”, compara Cristina Lima, uma das coordenadoras da clínica.

> Como não há leitos específicos para dependentes químicos na maioria dos hospitais gerais de Fortaleza, é comum usuários de drogas se internarem em hospitais psiquiátricos.

> O POVO visitou o Nosso Lar, no Benfica. Lá, pacientes com dependência química convivem com os que têm transtornos mentais. “Conflitos há, mas a gente dialoga”, diz a psicóloga do hospital, Andréa Autran.

> Ainda segundo Andréa, é comum pacientes com dependência química pedirem para ser internados porque querem fugir de traficantes. Geralmente, são pessoas ameaçadas de morte por causa de dívidas com o tráfico.

SAIBA MAIS

> A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a dependência química doença.

> Em agosto deste ano, o município de Fortaleza foi condenado pela Justiça a criar e manter em funcionamento um hospital para tratamento (em regime ambulatorial e de internação) de dependentes químicos, principalmente crianças e jovens. O prazo estabelecido para a criação do hospital é de 12 meses.

> O POVO entrou em contato com a coordenadora de Saúde Mental da Prefeitura, Evelyne Bastos. Ela disse que não sabia responder sobre o assunto, pedindo para o jornal entrar em contato com a outra coordenadora, Rane Félix, que não atendeu as ligações.

FIQUE POR DENTRO

> Centros de Atenção Psicossocial (Caps): Fortaleza conta com seis Caps voltados para dependentes de álcool e outras drogas, todos mantidos pela Prefeitura. O atendimento é ambulatorial. O paciente passa o dia lá, mas tem de retornar para casa à noite. O Caps trabalha com a política de redução de danos, estratégia que busca diminuir os efeitos da droga, sem, necessariamente, interromper esse uso.

> Comunidades terapêuticas: o principal instrumento terapêutico é a convivência do dependente químico com outras pessoas que têm o mesmo problema. Geralmente, as comunidades funcionam em sítios, onde os pacientes passam meses em tratamento, afastados do convívio social. Não é de competência desse tipo de serviço tratar doentes graves.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – O Povo