Entrevista com Mariane Caiado – Dependência química entre os jovens

Com especialização em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a psicóloga Mariane Caiado é coordenadora clínica do ambulatório da Contexto Consultoria e Clínica, no Rio de Janeiro/RJ. A especialista tem atuação profissional na área de psicologia clínica com ênfase no atendimento de dependentes de álcool, outras drogas e transtornos de impulso, atendendo adultos e adolescentes através de abordagem cognitivo-comportamental. A psicóloga também realiza cursos de formação e aconselhamento em dependência química. Confira a entrevista de Mariane ao Boletim Eletrônico da Abead desta semana!

1. Quais são os principais fatores que levam os jovens a consumirem drogas?

Ao longo de nove anos trabalhando com prevenção pude perceber que além da influência grupal, ou seja, da necessidade do jovem em se adequar a um grupo, houve, sem dúvida, um aumento da oferta e do avanço da informação a respeito de diversas drogas. Tudo isso desperta, ainda mais, o antigo e mais forte motivo para um primeiro consumo: a curiosidade.

Não podemos esquecer também de características relevantes atribuídas à grande maioria dos jovens, como a impulsividade e o comportamento compulsivo. Cada vez mais surgem jovens jogadores patológicos e dependentes de internet como demanda de atendimento psicoterápico. Unido tudo isso está uma cultura dentro e fora do ambiente familiar onde a punição prevalece e a prevenção é esquecida.

Talvez pelo pouco tempo disponível, pais acabam tomando posturas mais punitivas do que educativas, deixando os limites faltarem ao longo do processo de formação do jovem. Seguindo tal postura estão também as escolas e sociedade.

2. Qual é o papel do educador e da escola no processo de prevenção ao uso de drogas?

Cabe aos educadores e à escola estarem capacitados para oferecer a seus alunos informações acerca de uma proposta de vida saudável, meio ambiente e postura cidadã necessárias para uma consciência livre do uso de drogas, de forma clara e sem preconceitos. É necessário também estimular os alunos a uma constante reflexão sobre o assunto a partir de debates e trabalhos de pesquisas. É importante que a escola promova eventos voltados para a saúde e a qualidade de vida, e saiba valorizar as potencialidades de seu publico alvo.

3. Em casos de dependência química, existem diferenças no tratamento utilizado para um adolescente e no utilizado em um adulto? Em qual indivíduo há melhor aderência ao tratamento e por quê?

Existem muitas diferenças no tratamento com jovens dependentes químicos. A dinâmica do tratamento, desde o tempo das sessões em grupo, até a entrada e saída da clínica diariamente são diferenciadas e acompanhadas de perto para atender às necessidades dos jovens. Sessões mais dinâmicas, com palestras informativas, dinâmicas de grupo, treinamento de habilidades sociais e enfrentamento das situações de risco devem estar focadas na realidade e no contexto no qual está inserido o jovem, uma vez que suas necessidades são outras e muitas vezes os amigos, os colegas de escola, os primos e namorados(as) não compreendem esse universo tão amplo que é a dependência química e que cada vez mais cedo se apresenta aos jovens.

Em todos os casos de dependência química, a participação da família no tratamento é fundamental, porém no tratamento do jovem dependente químico a atuação da família precisa ser mais freqüente e participativa. É importante orientar os pais para um novo direcionamento na educação com a expectativa de extirpar os comportamentos disfuncionais apresentados, os limites devem ser recolocados e o resgate da confiança devem ser apresentados sempre que possível.

A avaliação e acompanhamento psiquiátrico são fundamentais e os pais também devem ser orientados quanto ao surgimento de outros transtornos para além da dependência química. É aconselhável a internação em ambiente protegido em clínica especializada toda vez que o jovem coloca sua vida ou a de terceiros em risco. Porém, quando possível, o ideal é o tratamento ambulatorial (se necessário, com acompanhamento terapêutico fora da clínica) para possibilitar ao jovem a reinserção social.

Quando falamos em Dependência Química, Uso/Abuso de drogas em qualquer caso fica difícil falar qual perfil de paciente adere com maior facilidade ao tratamento. Nós que trabalhamos com jovens e com este tipo de transtorno sabemos que a proposta é sempre buscar estratégias motivacionais e que precisamos constantemente estar revendo o processo de tratamento e nos revendo enquanto profissionais atuantes.

4. De onde surgiu a idéia de escrever um livro sobre o assunto?

O livro é um projeto que vem sendo alinhavado em parceria com a psicóloga Ana Café e nasceu do desejo de passar nossa experiência com adolescentes e no tratamento destes e de seus familiares. Tínhamos a vontade de nos aproximarmos mais das pessoas para falar, orientar, informar acerca dos fatores de risco para o uso de drogas, fatores que favorecem uma adolescência saudável e aqueles que a colocam em risco.

Esperamos com isso que os pais de adolescentes e educadores possam estar mais antenados e atuantes.

5. Por favor, fale um pouco sobre o seu livro (tema, conteúdo, para qual público ele é voltado, previsão de lançamento etc).

Tanto eu quanto a Ana temos experiência no campo da clínica de adolescentes e no processo de ação preventiva em escolas. Nosso objetivo é unir isto a nossa experiência no tratamento de jovens com uso de drogas, buscando a possibilidade de uma saída mais proativa junto aos familiares e educadores através de numa linguagem simples e acessível. O conteúdo está pautado em questões ligadas a fatores de risco, limites, autoestima, formação da autoimagem, papel da família no processo formativo. Também falaremos de questões pertinentes a escola e ao processo educacional. Enfim, o livro é voltado para todos aqueles que lidam com esse momento único que é a adolescência.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)