Uma nova visão sobre o tratamento dos viciados

O americano Henry Kranzler acredita que confinar os dependentes químicos em clínicas e fazendas terapêuticas é uma estratégia pouco eficaz

Confinar os dependentes químicos em clínicas e fazendas terapêuticas é uma estratégia pouco eficaz de combater a epidemia de crack. Quem alerta é o americano Henry Kranzler, considerado uma das maiores autoridades internacionais de dependência química, que falará aos gaúchos hoje e amanhã, em evento gratuito em Porto Alegre.

Professor de psiquiatria e genética e desenvolvimento biológico da Escola de Medicina da Universidade de Connecticut, com mais de 300 artigos publicados em revistas científicas internacionais, o professor participará do encontro Neuroquímica da Dependência, promovido pelo Hospital Mãe de Deus, a partir das 19h30min de hoje.

Com experiência de mais de 20 anos em pesquisas em genética e tratamento farmacológico para dependências químicas, com apoio do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, Kranzler argumenta que o paciente precisa aprender a lutar contra a droga em sua própria realidade – recebendo acompanhamento e incentivos para se manter longe do vício.

– O problema é que ninguém pode viver internado. Eles têm de viver suas próprias vidas. Então talvez seja melhor ensinar a não usar drogas desde o começo, na sua própria base – analisa.

Confira a entrevista concedida a ZH ontem à tarde pelo psiquiatra no Hospital Mãe de Deus, antes de seu passeio para conhecer o Museu Iberê Camargo:

“Ninguém pode viver internado em hospitais”

ENTREVISTA – Henry Kranzler Médico psiquiatra

Zero Hora – Nós enfrentamos uma epidemia de crack, e os tratamentos existentes parecem pouco efetivos. Há boas experiências em novos tratamentos em outros países?

Henry Kranzler – Os tratamentos não funcionam nos Estados Unidos também. O melhor tratamento provavelmente é a prevenção. Nós não temos boas medicações para tratar a dependência de cocaína, nem de crack. A maior parte dos tratamentos é psicossocial. A melhor estratégia em é conter o paciente associando o bom comportamento a recompensas.

ZH – Como isso funciona?

Kranzler – Tenho uma colega que estuda isso, e o que ela faz: ela tem uma espécie de aquário, sem água, nem peixes. Em vez disso, o aquário é cheio de papéis, e cada um diz: você ganhou U$ 3, ou você ganhou um ticket para o cinema, mas também há prêmios maiores, como uma TV. É como se fosse uma loteria. Se o exame de urina mostrar que o paciente não ingeriu drogas, o paciente pode tirar um papel. E sempre ganha alguma coisa. É uma forma de estimulá-lo a se manter limpo. A dificuldade das medicações é que algo que funciona para uns não funciona para outros.

ZH – Já foram mapeadas particularidades genéticas ligadas ao risco de se tornar dependente dessas drogas?

Kranzler – Sim, mas não está claro qual é o gene específico que identifica o risco da dependência. Já foram identificados genes específicos para o tabaco, para a dependência de álcool, mas, para cocaína, não. Já sabemos que existe alguma origem cromossômica, mas não sabemos qual é o gene específico ainda. Não é como uma Síndrome de Down, que você pode ver a diferença.

ZH – Por que é tão difícil tratar o crack?

Kranzler – É porque a cocaína (da qual deriva o crack) é uma droga muito potente, que atua diretamente no sistema cerebral, e dá muito prazer. Existem estudos com animais que tiveram acesso à cocaína e consomem até morrer, de tanto prazer que sentem. O problema é como interromper o impacto da cocaína no cérebro.

ZH – Nos Estados Unidos, o crack também é uma epidemia?

Kranzler – Era, mas a heroína está se tornando mais popular. Imagino que tem a ver com a tendência internacional da droga.

ZH – O que os pais podem fazer para proteger os filhos?

Kranzler – Os pais têm de prestar atenção, conversar, estar envolvidos com a vida dos filhos. Um dos problemas do abuso de drogas é que os usuários usam droga como uma forma de encontrar prazer em suas vidas. Se você tem outras formas de prazer, isso diminui o risco. Então, essa é uma estratégia importante de prevenção: ajudar esses adolescentes a encontrar outros espaços de prazer.

ZH – No Brasil, uma das dificuldades é encontrar lugares para internar os filhos, pois a estrutura de atendimento é precária. Como é nos Estados Unidos?

Kranzler – Não é tão boa como poderia ser. Também existem muitos programas, mas não são integrados.

ZH – E qual seria o tratamento ideal para crack?

Kranzler – Se alguém viesse se tratar comigo, eu tentaria algumas medicações como o topiramato (contra a fissura) e o incluiria em programas de controle com recompensa.

ZH – O senhor não recomenda a internação dos pacientes?

Kranzler – O problema é que ninguém pode viver internado em hospitais. Eles têm de viver suas próprias vidas. Então talvez seja melhor ensinar a não usar drogas desde o começo, na própria base dos pacientes. Os pacientes precisam é aprender outras fontes de prazer para aproveitar a vida.
Fonte: UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – Zero Hora