Prefeitura cria “casas de passagem”

Consumo de drogas acarreta problemas sociais, como agressividade, depredação e furto de móveis e objetos, o que dificulta o retorno dos usuários para suas casas.

Criar residências terapêuticas, as chamadas “casas de passagem”, para dar respaldo ao processo de reabilitação de dependentes de álcool e drogas, é a proposta de Campinas para enfrentar o avanço do consumo, especialmente do crack, entre adultos jovens. Levantamento da ação Bom Dia Moradores de Rua mostrou que oito entre dez mendigos usam entorpecentes, sendo cinco dependentes do crack. “A Secretaria de Saúde não pode fugir à responsabilidade de dar uma resposta aos dependentes químicos, um sério problema de saúde pública”, afirma o secretário José Francisco Kerr Saraiva.

De acordo com o secretário, o consumo de drogas acarreta problemas sociais, como agressividade, depredação e furto de móveis e objetos, o que dificulta o retorno dos usuários para suas casas. “Nos surtos agudos, é preciso internação para desintoxicação. Mas, depois, é preciso um período de reabilitação para preparar o usuário para o retorno ao convívio social. Aí, entram as casas de passagem”, diz Saraiva. Ele lembra que a internação psiquiátrica é pelo tempo mínimo necessário para reestruturar o paciente. “Nas casas (de passagem) eles vão morar, ter autonomia sobre suas vidas, participar das tarefas cotidianas, fazer a própria refeição. A diferença é que serão acompanhados por psicólogos, com apoio de monitores.”

O primeiro passo do programa de atenção a usuários de álcool e drogas é a ativação da Clínica de Psiquiatria montada no Hospital Ouro Verde. A unidade, com 20 leitos, foi inaugurada recentemente pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, mas ainda depende de recursos federais para entrar em operação. Na próxima semana, Saraiva vai a Brasília negociar a liberação de R$ 125 mil mensais para o custeio do serviço. Na ocasião, vai apresentar também o projeto de instalação das casas de passagem e buscar recursos.

A proposta prevê a instalação de cinco unidades, uma em cada Distrito de Saúde, em imóveis alugados. “Sou contra alugar imóvel para montar centros de saúde, porque demanda uma reforma grande e de alto custo. Mas as casas de passagem podem ser implantadas em residências comuns, já que têm a finalidade de servir mesmo de moradia”, diz o secretário. As casas funcionariam nas imediações de centros de atenção psicossocial específicos para álcool e drogas (Caps-AD). Campinas dispõe de dois Caps-AD, nas áreas Sul e Leste. “Queremos construir mais três, um em cada região. A ideia é que atuem juntamente com as casas de passagem”, afirma Kerr Saraiva.

O projeto das residências terapêuticas já está pronto e será apresentado nos próximos dias ao prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT). Para Kerr Saraiva, a iniciativa atende a uma solicitação do próprio pedetista, que pediu uma resposta de tratamento e acompanhamento dos pacientes pobres, que não podem pagar uma casa de repouso ou de reabilitação.

Crack age diretamente no “centro de prazer do cérebro”

De acordo com especialistas, o crack é muito viciante porque tem efeito similar ao da cocaína. Provoca a liberação de várias substâncias que agem no “centro de prazer do cérebro”. “O crack é um estimulante do sistema nervoso central e gera sensação prazerosa”, explica o psiquiatra José Carlos Loureiro Júnior. A diferença para cocaína é que a absorção do crack é muito mais rápida e o efeito, mais imediato e curto. “Como a cocaína, que age no ‘centro do prazer’, o crack causa muita dependência. O agravante é que é uma droga barata e, portanto, mais acessível. E como o efeito é mais curto, o consumo é ainda maior”, diz Loureiro Júnior. Outro agravante do crack é que o organismo se adapta melhor às drogas de efeito menor e mais duradouro. “A intensidade alta traz junto maiores efeitos colaterais”, diz o psiquiatra. O uso da droga pode causar hipertensão, enfarte, acidente vascular cerebral e sobrecarga renal, pela liberação da dosagem intensa. “Pela sua própria dinâmica, de pico mais rápido e curto, o crack é mais devastador para o organismo.” (DM/AAN)
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – Correio Popular