50 mil pessoas usam crack em Goiânia

Existem quase 50 mil usuários de crack ou pasta base em Goiânia. A estimativa é do psiquiatra especialista em dependência química e saúde mental Paulo Soares Gontijo, que acredita que 4% da população goiana consuma a droga na capital. O número é 314 vezes maior que o registrado em 2004, quando apenas 1% da população (cerca de 12 mil pessoas) usavam o entorpecente. O crescimento exagerado do consumo se dá, de acordo com o especialista, pelo baixo custo e pela mobilidade do tráfico. “Quanto mais barato, maior o consumo. Quanto mais consumo, maior a procura por tratamento”, explica.

A expansão da droga na capital gerou nos últimos cinco anos um aumento de 40% na procura por tratamento psiquiátrico. “Não há estudos sobre o crescimento, mas a estimativa é apontada pela quantidade de pessoas que procuram ajuda”, ressalta. Gontijo afirma ainda que o crack tem maior poder destrutivo e de dependência do que qualquer outra droga. “Três meses de consumo são suficientes para debilitar completamente o usuário. O vício é contraído geralmente nos primeiros contatos com o entorpecente”, pontua ao explicar que o crack é a mistura da cocaína refinada com bicarbonato de sódio, a pasta base é a pedra pura sem refino, por isso causa maior dependência.

Dados estatísticos da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc) revelam que 858 pessoas foram presas entre janeiro e setembro deste ano por tráfico de crack ou pasta base em Goiânia. As ocorrências confirmam a explosão do crack na capital, considerando que em todo ano de 2008 foram registrados 878 casos e, em 2007, 385 detenções. “O crack começou a ser traficado em 2007 e hoje é a droga mais vendida e consumida. Pode-se afirmar que o tráfico do entorpecente triplicou em três anos”, afirma o delegado Isaías Araújo Pinheiro, titular da Denarc.

O diretor administrativo do Projeto Metamorfose, pastor Wesley Eustáquio Damasceno de Oliveira, afirma que a droga está atingindo cada vez mais as pessoas de classe média e classe alta, e que a instituição registrou aumento de 85% nos casos de dependentes de crack. “37% dos dependentes de crack são de classe média; 33% de média e 30% de baixa”, diz, ao ponderar que os números são baseados no público atendido nas três unidades do projeto. Um exemplo é caso do jovem de classe média alta Helan Spassini de Oliveira, 20, que buscou nas drogas a solução para uma decepção amorosa.

“Cheguei a gastar 300 reais por dia com cocaína e crack. Parei de trabalhar e tive duas motos apreendidas por estar embriagado e drogado”, relata. Internado há um mês, o jovem fala dos prejuízos causados pelo vício. “Perdi o respeito da minha família, da minha namorada, dos meus amigos e da sociedade. Fiz todos sofrerem com meus erros, por isso busquei ajuda”, finaliza.

Nenhuma clínica especializada

Segundo especialista, não há nenhuma clínica de tratamento de usuários de drogas em Goiânia. Existem clínicas psiquiátricas conveniadas ao governo com precários programas que tratam o dependente químico como doente mental. “O governo não investe em programas específicos nem em profissionais qualificados para tratar o usuário”, afirma ao pontuar que a capital goiana tem nove clínicas com apenas 80 leitos destinados a dependentes químicos.

As casas de apoio ou comunidades terapêuticas para recuperação de usuários de drogas são responsáveis, de acordo com Gontijo, pela grande maioria dos pacientes em estágio inicial e médio, porém não oferecem tratamento médico e por isso não estão aptas a tratar pacientes graves. “Há pacientes em avançado estado de gravidade, totalmente debilitados, que necessitam de acompanhamento clínico. Esses são encaminhados às clínicas psiquiátricas”, garante.

Na opinião do especialista, a falta de políticas públicas na área estabelece uma relação de irresponsabilidade entre os governos, municipal, estadual e federal. “Deixar o problema nas mãos do governo federal é muito fácil. Resolver o problema na base seria o ideal”, enfatiza. Para ele, cada município deveria fazer um raio X do caso e racionalizar a situação informando o Estado sobre a realidade. “Cada município deve encarar o problema junto à comunidade local e criar uma política de acordo com a necessidade”, pondera.
Autor:Patrícia Santana, Hoje Notícia
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas