Drogas: declaração de Cabral sobre legalização repercute

A legalização das drogas ainda é um assunto espinhoso no Rio. Depois de o governador Sérgio Cabral declarar, em entrevista ao Jornal do Brasil, que a legislação das drogas tem que ser discutida em âmbito internacional (em organizações como a ONU e a OMS, por exemplo), e afirmar que a “proibição pela proibição” resulta em número de mortes muito maior do que se houvesse uma “legislação mais inteligente e voltada para vida”, políticos e especialistas aqueceram o debate.

Na Assembleia Legislativa do Rio, o assunto é tratado com cautela. O deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB), concorda que a discussão deve ser feita, e em todos os níveis:

– O narcotráfico é internacional. Por outro lado, a lavagem de dinheiro nacional também deve ser combatida. O Rio é polo de consumo e de exportação de drogas.

Já para o deputado estadual Jorge Babu (PT), ex-policial, não deveria haver debate:

– Sou totalmente contra a legalização. Deveríamos discutir segurança pública.

Sociedade civil dividida

Renato Cinco, sociólogo e um dos organizadores da Marcha da Maconha, não considera o aval das organizações internacionais necessário, embora admire o fato de Sérgio Cabral reacender o debate.

– Vários países avançaram antes da ONU, como Holanda, Portugal e Argentina. Por que o Brasil não pode fazer o mesmo? – defende Cinco, que já foi preso por apologia.

Para Luiz Fernando Prôa, pai de Bruno Prôa, usuário de crack que estrangulou a namorada de 18 anos após uma discussão, a legalização é necessária:

– Temos que tirar os dependentes químicos das mãos dos traficantes e colocá-los nas do governo e da sociedade.

Maria Tereza de Aquino, diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (NEPAD), da UERJ, considera impossível aplicar aqui o que a Holanda instituiu.

– Lá, o mínimo de THC na maconha vendida legalmente é de 12%. Se isso fosse aprovado aqui, os usuários procurariam pela droga com maior teor e iriam encontrá-la no tráfico – acredita ela, que defende ainda que a legalização obstruiria ainda mais o sistema público de saúde – Legalizar aumentaria o número de usuários ou pelo menos a frequência da utilização, seria mais um problema para o SUS.

Adversários atacam opinião sobre as drogas

Otávio Leite disse que a revelação é preocupante. Anthony Garotinho o chamou de “deslumbrado”. Marcelo Itagiba, mais crítico, o considera incompetente. Marcelo Crivella lembra que a Holanda, ao liberar, não conseguiu controlar o consumo de drogas, e Fernando Gabeira aponta o cerne da questão na reforma da polícia. As declarações do governador do Rio, Sérgio Cabral, em entrevista ao JB domingo, a favor da liberação das drogas – desde que haja um pacto internacional, frisou – despertaram os seus adversários.

Os opositores aproveitaram a polêmica para trazer o assunto ao debate eleitoral, a menos de um ano da campanha para o governo do estado.

– A declaração do governador é muito preocupante. Porque até pouco ele mencionava a maconha. Agora ele pluraliza. Aonde quer chegar? – critica o deputado federal Otávio Leite (PSDB). – É preciso trabalhar a cabeça das novas gerações. O combate se dá pela consciência, não no consumo. Esse é o desafio.

Para o federal Fernando Gabeira (PV), o foco deve ser investimento na inteligência da segurança pública.

– É legítimo ter a posição dele, mas o tema é muito difícil de ser debatido – comentou Gabeira.

– É mais prudente uma ponte entre os dois lados, o que quer legalizar (as drogas), e o q não quer, e isso passa por uma reforma da polícia. Sem isso, não tem condições nem de reprimir, porque fracassa; e nem de liberar, porque não se terá o controle.

Segurança

Ex-secretário de Segurança Pública do Rio, o federal Marcelo Itagiba, também delegado da PF e recém saído do PMDB de Cabral para o PSDB, foi mais duro:

– A defesa pela liberação do consumo só é feita por aqueles que são incompetentes para combatê-las – criticou o deputado. – Em relação a governos anteriores, o atual governo apreende menos drogas e armas, e faz menos prisões – completa Itagiba, que destaca estar embasado em números das gestões da segurança.

O senador Marcelo Crivella (PRB) lembrou que o caso da Holanda, país europeu que tem política de liberação do consumo:

– Os resultados lá foram catastróficos. Se dessem certo, todos os países já estavam debatendo o assunto.

Maior crítico de Sérgio Cabral Filho, o ex-governador Anthony Garotinho, que por ora deseja disputar o Palácio Guanabara novamente, foi sucinto e irônico:

– Prefiro resumir a entrevista em uma só palavra: ele é um deslumbrado.
Fonte:Jornal do Brasil / UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas