Aumenta 50% o número de mulheres no grupo “bebedores de risco”

Um dado do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool aponta que 70 milhões de brasileiros consomem bebidas alcoólicas. Entre os homens, 12 milhões são considerados alcoólatras.

Mas são os números entre as mulheres que vêm impressionando os especialistas. Nos últimos dez anos, aumentou em 50% a quantidade de mulheres no grupo chamado “bebedores de risco”. Cerca de cinco milhões de brasileiras são alcoólatras. Esse é o tema da nossa conversa de hoje com a repórter Susana Naspolini.

O alcoolismo pode estar mais perto da gente do que se imagina, porque ele não tem classe social, nem idade. Várias mulheres podem ser alcoólatras. O principal disso tudo é de as pessoas se conscientizarem de que o alcoolismo é uma doença. Quem é alcoólatra é doente e, como todo doente, deve procurar tratamento.

“Cheguei a roubar dentro de casa para beber, cheguei a me prostituir para beber. Fiz tudo e faria tudo o que fosse possível para beber. Se você me perguntar: você mataria para beber? Se eu tivesse bebendo, não tenho a menor duvida de dizer”, conta uma estudante de 32 anos. Ela é uma universitária de classe média que tenta se livrar do alcoolismo.

Aos 14 anos, ela foi apresentada ao álcool e, desde então, não parou mais. “Comecei a beber em festinha do colégio, como todo mundo. Eu comecei a beber também para ser aceita, para me sentir normal”, diz.

Mas ao contrário disso, o alcoolismo só trouxe perdas na vida dela. “Você vai abrindo mão da vida, e você vai abrindo não naturalmente. A prioridade é sempre o álcool”, ressalta.

Foram várias internações em clínicas de reabilitação, mas ela sempre saia e voltava a beber. Nada parecia empecilho para o vício. “Eu fui procurar a bebida dentro da minha casa, mas não encontrei nenhuma bebida. Eu encontrei uma garrafa de álcool de cozinha”, revela.

Depois de quase 20 anos sofrendo com o alcoolismo, chegou um momento que ela mesma decidiu se tratar. “A gota d´água foi quando eu saí da faculdade, vi uns moradores de rua bebendo debaixo de uma marquise. Eu fui lá, fiquei ali e não voltei mais casa”, conta.

Hoje , a estudante frequenta os Alcoólicos Anônimos. Todos os dias, ela participa das sessões. Há um mês e meio está sem beber, e trava uma luta diária. “Um dia de cada vez. Não posso garantir. Eu não bebo hoje. Eu sinto que hoje eu vivo com dignidade, e isso é uma coisa importante”, afirma a jovem.

Agora, conversamos com outra mulher: professora, mãe e dependente do álcool.

“Eu me sentia alegre para conversar, para dançar. Tudo ficava mais leve. O álcool se tronou um aliado”, diz.

Nem estar grávida fez ela parar. “Bebi durante toda a gravidez e tive o meu filho. Inclusive, eu parei de amamentar para poder beber”, lembra.

“A culpa, a vergonha, o arrependimento eram tão fortes que chegou um ponto em que eu me vi bebendo cachaça de manhã”, afirma a professora.

Ela conta que a ajuda da família foi fundamental para ela mudar essa história. “Um dia, ele falou para mim: ´mãe, acorda, a vida já começou. Tantas pessoas já fizeram tantas coisas, e você vai continuar aí bebendo´. Foi o que o meu filho disse com 16 anos”, revela.

A partir daí, ela decidiu buscar ajuda e também participa das sessões do AA e tudo que quer é recuperar o tempo perdido. “Eu quero me sentir realizada e olhar para os meus filhos e poder abraçá-los e participar da vida deles como uma pessoa integra e não modificada por alguma substancia”, ressalta a professora.

O Bom Dia Rio conversou com a médica Analice Gigliotti, chefe do setor de psiquiatria da Santa Casa e diretora da Associação de Psiquiatria do Rio de Janeiro, sobre o assunto.

“Duas coisas são pilares para você identificar o alcoolismo. Uma é a perda de controle do comportamento, se a pessoa começa a beber mais do que ela planejava beber, se ela começa a ter sintomas da crise de abstinência, se ela começa se sentir necessidade de beber no dia seguinte. A segunda coisa é o prejuízo. Quando começa a prejudicar a vida profissional, a vida familiar, a vida social”, aponta a especialista.

Ainda segundo a médica, o principal comportamento da família é não ter crítica ou juízo moral. “O alcoolismo é uma doença. Ela não bebe, porque ela é moralmente questionável. Ela bebe, porque sente uma vontade muito grande e não consegue controlar isso. Então, você deve chegar falando amorosamente: ´eu estou preocupado com você, você não está bem, você não está conseguindo trabalhar, você não tem mais contato com a gente, vai procurar ajuda´”.

A própria família pode procurar ajuda. “Muitas vezes, é a família que é a ponte. Às vezes, o paciente não está querendo ir ao tratamento. Na Santa Casa, a gente tem um programa de atendimento à família e um programa de atendimento ao paciente”, aponta a especialista.
Autor:Bom Dia Rio, Rede Globo
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)