A tragédia do crack

Há 20 anos, o crack estava restrito a uma área degradada do centro da capital paulista tomada por moradores de rua. Logo denominado Cracolândia, o reduto foi amplamente exposto pelos meios de comunicação, com imagens de menores fumando pedras da droga em cachimbos improvisados. Nem as luzes da mídia nem o vaivém de pessoas ou mesmo a eventual passagem de alguma viatura policial parecia incomodar os viciados — ou as autoridades. Quinze anos depois, ainda se vivia a ilusão de que o subproduto da cocaína, pelo preço baixo, não chegaria sequer ao Rio de Janeiro, onde seria tido como entrave aos grandes negócios do tráfico. Mas logo o consumo rompeu o quadrilátero paulistano, conquistou classes de maior renda e, nos últimos dois ou três anos, virou epidemia nacional.

A dimensão da tragédia é revelada, desde ontem, por uma série de reportagens feitas por 10 repórteres de três veículos dos Diários Associados (Correio Braziliense, Estado de Minas e Diario de Pernambuco). Num levantamento minucioso, foram percorridos quase 7 mil quilômetros, abrangendo o Distrito Federal, as fronteiras do Norte e do Centro-Oeste do país, os estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. O retrato é avassalador: o crack virou epidemia nas localidades mais remotas do território nacional — invadiu os pequenos municípios, a zona rural e chegou até aldeias indígenas. Propaga-se com rapidez comparável à com que vicia. Mais: o trabalho não só confirma o fracasso da política antidrogas do governo, admitido pelo próprio presidente Lula no início do mês, como mostra que a nova reação é pífia diante do problema.

Programa emergencial lançado em junho pelo Ministério da Saúde prevê investimentos de R$ 117,9 milhões até o fim de 2010. Serão contempladas 108 cidades, sendo sete delas localizadas em fronteiras, Palmas (capital do Tocantins) e as 100 maiores do país, todas com mais de 250 mil habitantes. A proposta é aumentar o número de leitos e de profissionais dedicados à saúde mental, instalar novos núcleos de apoio à saúde da família e mais centros de atenção psicossocial. Público-alvo: crianças e jovens que fazem uso abusivo de álcool e drogas ilícitas.

É preciso muito mais. No Rio de Janeiro, só com mandado de segurança obtido por familiares, com apoio da Defensoria Pública, 32 pessoas conseguiram internação em clínicas especializadas nos últimos 12 meses. Se é essa a realidade da segunda cidade mais rica do país, imagine-se a dos rincões. No Rio Grande do Sul, quarto estado em participação no PIB nacional, o crack já responde por seis mortes diárias de pessoas entre 16 e 30 anos, o dobro da média de vítimas do trânsito. Além disso, de cada 10 atendimentos na emergência psiquiátrica do Hospital São Pedro, de Porto Alegre, sete são de usuários da droga que moram no interior.

As muitas cracolândias espalhadas país afora exigem sistema público de saúde capaz de oferecer tratamento adequado e em quantidade suficiente para atender à demanda. Mas urge atuar também de forma intensiva na prevenção, com a conscientização da sociedade para os perigos da droga. Com R$ 5 é possível adquirir uma pedra de crack, cujos efeitos avassaladores têm início em 10 a 15 segundos após o consumo, duram de cinco a 15 minutos e levam o usuário, nesse breve espaço de tempo, de uma sensação de profundo prazer à depressão, ponte curta para nova dose.
Fonte:Correio Braziliense / ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)