Cenário XXI – Ou cigarro, ou remédio

Questão de bom senso Fumar pode reduzir efeito de antibióticos até pela metade; quadro é preocupante, diz pesquisa

Depois do álcool, o cigarro pode ser o próximo a ser cortado para quem precisa tomar medicação. Além de chances maiores para o desenvolvimento de câncer e outras doenças, quem fuma também absorve menos antibióticos, o que reduz de forma significativa o efeito do medicamento no organismo.

A conclusão é de um estudo feito pela Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic, de Campinas, em parceria com o Laboratório de Farmacologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com o professor Rogério Heladio Lopes Motta, que orientou a pesquisa com co-participação da professora Juliana Cama Ramacciato, estudos internacionais já mostravam que o cigarro interferia na ação de outros tipos de remédio, como os de doenças cardiovasculares.

“A principal hipótese dos especialistas é que isso se relaciona com a fumaça, em especial ao composto hidrocarboneto policíclico aromático, o HPA, que pode interferir na produção de enzimas pelo fígado responsáveis por jogar o remédio na corrente sanguínea”, disse Motta. Os testes foram feitos com o antibiótico Metronidazol, usado para tratar doenças periodontais, como gengivite, e ginecológicas.

Os pesquisadores coletaram sangue e saliva em intervalos regulares de 30 pacientes, sendo metade não-fumante e o restante fumantes com consumo de 20 cigarros diários. “Na saliva a diferença não foi tão significativa, porque é um local onde há mais dificuldade do remédio chegar. Mas no sangue, em alguns momentos, a concentração nos fumantes chegou perto da metade da dos não-fumantes”, disse a pesquisadora Fabiana Pinchetti Nolasco.

Segundo Fabiana, a diferença de antibiótico no sangue dos grupos avaliados foi grande até a última marcação. Mattos ressaltou que o quadro é preocupante, pois o estudo trabalhou com doses maiores que as usadas em tratamentos.

“O que sabemos até o momento é que o fumante que consome mais de 20 cigarros por dia tem uma interferência significativa na biodisponibilidade do antibiótico e que seria temerário usar uma dose maior (para compensar), porque aumentam os riscos de reações adversas e intoxicações”, afirmou o professor.

Estudo vai representar o Brasil nos EUA

O estudo sobre a relação entre cigarro e o efeito de antibióticos da SL Mandic foi premiado sem setembro pela Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica como melhor projeto do País na categoria Pesquisador Iniciante em Odontologia. Com isso, a aluna Fabiana Nolasco representará o Brasil no prêmio internacional Student Clinician Award, que acontece em outubro do ano que vem, nos EUA, durante o Congresso Mundial de Odontologia. A pesquisa teve início em 2006 e foi realizada por uma equipe de sete pesquisadores. “Foi uma surpresa sermos escolhidos entre tantos trabalhos bons apresentados, mas é algo muito bem recebido”, disse Fabiana. De acordo com o professor Rogério Mattos, a próxima etapa da pesquisa começa ano que vem e avaliará pacientes em tratamento para ver se há coincidência entre dificuldade de cura e o hábito de fumar. A segunda amostra avaliará 60 pessoas, sendo metade de fumantes e a outra de não-fumantes. (DC)
Autor:Danielle Castro, Gazeta de Ribeirão
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas