Trânsito e crack: a naturalização da morte?

O Brasil enfrenta dois problemas graves de saúde pública que estão se tornando crônicos: o caótico estado do trânsito e a rápida disseminação do crack entre todas as classes sociais e faixas etárias. A junção de trânsito e drogas não é gratuita, e não só por um problema estar presente no outro.

O que ocorreu nos últimos anos em torno do trânsito é paradigmático, pois os acidentes são “de trânsito” e as mortes, milhares a cada ano, são “mortes do trânsito”. Não têm donos, só vítimas. Os que matam e os que morrem nas ruas e estradas do país têm entre 18 e 30 anos. Os custos materiais sobem a mais de R$ 6 bilhões, e seu reflexo social são milhares de famílias amarguradas. Motoristas e pedestres, é sempre bom lembrar, são vítimas de causas que podem ser evitadas.

Todas as drogas são deploráveis, mas o crack parece ser mais, devido a uma pretensa democratização que promove, pois vicia dos pais aos filhos, dos miseráveis aos ricos. Essa capacidade de se instalar, e destruir, aliada a outros sinais socioeconômicos mostra que a capacidade de sedução do crack, e sua facilidade em se espalhar, fazem da droga uma das mais letais.

Relatório da Polícia Rodoviária Federal sobre exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras mostra que pontos de prostituição estão sendo invadidos por crianças que buscam estradas próximas de pontos de venda de crack. As rodovias são as veias que irrigam o Brasil, integram o Norte ao Sul e o Centro-Oeste ao litoral. Trata-se, portanto, de caso emblemático, pela proximidade de temas sensíveis: exploração sexual de crianças, crime hediondo; tráfico de drogas, crime inafiançável, e malha viária vulnerável.

Burgos ou metrópoles, a mídia traz uma crônica de horrores nas cidades devido à institucionalização das cracolândias, locais de livre uso e venda. É o vício em local público e conhecido. Pesquisadores e clínicos concordam com os perigos do crack para a sociedade, e o Departamento de Polícia Federal mostra que isso tem sentido: em 2005 foram apreendidos 140 quilos da droga; em 2007, meia tonelada!

Essa velocidade também se faz presente em clínicas para tratamento de dependentes químicos. Nas clínicas particulares, um terço dos dependentes já é de viciados em crack. O Nepa, instituto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) que atende à população de baixa renda, constata: em 2005, menos de 14% dos pacientes eram viciados; em 2008, chegavam a 57%. Em Minas Gerais, o Centro Mineiro de Toxicomania diz que dependentes de crack já superam os viciados em álcool. Essas instituições, mais o Ministério da Saúde, confirmam: a maioria dos usuários é jovem com até 25 anos.

Hoje, muito se sabe sobre esses problemas de saúde pública. A tática espalhafatosa de guerra às drogas não obteve sucesso, pois observamos, após anos de repressão, maior produção, distribuição e consumo. A situação também não se alterou devido às leis draconianas e midiáticas.

Algumas iniciativas se destacam, como a Comissão Latino-Americana para Drogas e Democracia, que tem a honrosa participação do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em nosso continente, México, Equador, Bolívia, Colômbia e, mais recentemente, Uruguai e Argentina analisam como substituir políticas repressivas por outras formas de enfrentamento social às drogas.

Quanto ao trânsito, vivemos um ciclo perverso. Perverso, porque demonstra redução de mortes durante um período, antes que se volte à habitual banalização dos acidentes “de trânsito”. Se houve redução antes, seria possível mantê-la depois.
Fonte:Correio Braziliense / ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)