Estudo revela efeitos crônicos do crack

Em uma pesquisa realizada no Laboratório de Poluição Atmosférica, do Departamento de Patologia, da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo, o médico patologista e diretor da Sociedade Brasileira de Patologia-SBP,Alcides Gilberto Moraes, utilizando uma metodologia inédita, pôde avaliar os efeitos crônicos do crack, como a diminuição do peso do coração dos camundongos.

No estudo, Moraes utilizou camundongos pela semelhança de sua anatomia cardiovascular com à dos seres humanos.

Ao todo, 24 camundongos de diferentes idades foram submetidos, durante dois meses, a uma câmara de inalação que queimava a droga e depois filtrava a fumaça para não ser espalhada pelo laboratório.

Durante o experimento, os camundongos inalavam 5g da droga durante 5 minutos. “A baixa quantidade foi utilizada para não causar overdose, o que prejudicaria a pesquisa”, justifica Alcides Gilberto Moraes.

O dispositivo foi projetado para que os animais pudessem inalar a fumaça da cocaína crack, de maneira que simulasse como a droga é consumida na rua, e os resultados não só confirmaram o que já existe na literatura, como também indicaram efeitos até então não relatados em trabalhos experimentais e mesmo em humanos, que é a atrofia das células do coração e consequente perda de peso desses órgãos.

Os resultados mostraram que os efeitos tóxicos da droga causaram, nos dois grupos, um achado inédito, de atrofia dos componentes celulares da parede miocárdica, com perda de peso em corações. Talvez relacionado com a dosagem, porcentagem de cocaína no crack (57,66%) e o tempo de exposição.

Também foram detectadas outras alterações, já descritas inclusive em humanos, como o vaso espasmo de ramos coronarianos intramurais (ramos dentro do miocárdio) e aumento bastante significativo da apoptose (a morte programada de células que é normal apenas até certa quantidade), favorecendo a perda da capacidade funcional miocárdica, e sendo responsabilizada pelas arritmias, ca usas frequentes de paradas cardíacas e morte súbita.

O estudo chama a atenção para os efeitos mais intensos da droga nos animais jovens, e reforça que o crack representa problema grave de saúde pública e pode ser utilizado para análises comparativas com órgãos provenientes de autópsias.

Estudos anteriores utilizaram a cocaína em sua forma injetável. Desta vez, o patologista Alcides Moraes, realizou a pesquisa com o crack, que é uma mistura da cocaína em forma de pasta não refinada com bicarbonato de sódio, popularmente utilizado em razão de seu baixo custo e acessibilidade em comparação à cocaína em pó, habitualmente cheirada ou injetada. Motivo pelo qual o perfil dos usuários de crack está mudando e aumentando, segundo Relatório Mundial sobre Drogas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.

O sucesso da pesquisa do dr. Moraes abre espaço para outros estudos que identifiquem o consumo do crack associado à outras drogas de uso comum no dia-a-dia, como álcool, maconha e tabaco.
Fonte:Dourados Agora/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)