Mães contra o crack

A decisão de um grupo de mães de usuários de crack, em Pelotas, de se unirem para tentar livrá-los da droga deve ser destacada pelo exemplo de mobilização. O alto poder de desestabilização da droga, tanto para os usuários crônicos quanto para familiares e pessoas mais próximas, faz com que dificilmente o problema possa ser enfrentado em âmbito familiar, por maior que seja a determinação dos pais. Por isso, as comunidades precisam apoiar iniciativas do gênero, pois só a união de propósitos pode se mostrar maior do que a degeneração física e mental provocada por esse derivado da cocaína.

De nada adianta a mobilização, porém, se o poder público não fizer a sua parte, o que implica acima de tudo uma estrutura adequada para o tratamento de quem se escravizou à droga. E o que ocorre, de maneira geral, ainda é uma total falta de condições das estruturas de saúde pública de prestar socorro a quem se encontrar em crise, muitas vezes colocando em risco a própria vida e a de quem mantém algum tipo de relacionamento no cotidiano. Sem condições adequadas, a alternativa que sobra para os pais é acorrentar os filhos dependentes da droga, sem contribuir para uma solução efetiva.

Um dos pressupostos para mudanças no atendimento a usuários crônicos, capaz de facilitar o trabalho de mães como as que se uniram em Pelotas, é o poder público se dar conta da importância do tratamento involuntário. Quem se subjugou ao crack não tem condições de discernir se quer ou não ser tratado. Simplesmente precisa se submeter a um tratamento rigoroso e demorado, que, embora com reduzidas chances de sucesso, precisa ser tentado.

A mobilização de mães em Pelotas pode contribuir para amenizar o sofrimento dos familiares e para facilitar ações em favor dos dependentes. Precisa, porém, ser apoiada pela sociedade e particularmente pelo poder público, com providências efetivas de socorro físico e psicológico a quem se transformou em vítima do crack.
Fonte:Zero Hora/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)