Faltam vagas para internação enquanto vidas se destróem

O vício se espalha, desagrega famílias em Maringá e as políticas públicas de combate à droga deixam a desejar. Tratamento é longo e na maioria das vezes o usuário sofre recaída.

Odair Cecílio, 30 anos, foi preso no mês passado por invadir uma casa no Jardim Santa Helena, em Maringá, destruir móveis e ameaçar incendiar o imóvel, caso não recebesse dinheiro. Voltar para a cadeia não é uma novidade na vida de Cecílio, exceto pela vítima desta vez ter sido a própria mãe, de 65 anos.

Vizinhos chamaram a polícia ao ouvir os apelos da mulher, que gritava e pedia pelo amor de Deus para o filho não acender o isqueiro. Instantes antes, ele havia cortado a mangueira do botijão de gás.

Victor Hugo, 32 anos, passou dois anos na cadeia em Maringá, ganhou liberdade no mês passado e uma semana depois voltou a ser preso. Ele relatou à polícia que passou três dias seguidos se drogando, até ficar sem dinheiro.

Pegou a motocicleta da mãe, foi até o centro da cidade, quebrou a vitrine de uma loja e furtou 40 calças. Trocou as roupas por 2 gramas de droga e R$ 20 com traficantes, no Conjunto Santa Felicidade. Chegou algemado na delegacia dizendo que as drogas voltaram a destruir sua vida.

Odair e Victor dividem o mesmo teto na 9ª Subdivisão Policial de Maringá. Voltaram para a cadeia impulsionados por um vício em comum: o crack. A droga avança em todo o País mais rápido do que as políticas públicas voltadas para o combate à dependência química.

Polícia, Ministério Público e Judiciário tiram viciados e traficantes das ruas dentro das medidas previstas no Código Penal, mas a vida na cadeia não curou o vício de Odair e Victor. Mesmo que buscassem ajuda à dependência, os dois ainda esbarrariam na carência da estrutura disponível para o tratamento.

Maringá conta com 180 vagas para internação de dependentes químicos em instituições públicas e particulares. A estrutura é pequena diante da demanda.

Apenas na diretoria do Programa Antidrogas da Secretaria de Assistência Social do município, uma média de cem pedidos de tratamento são recebidos por mês, a maioria encaminhada para o Centro Psicossocial para Álcool e outras Drogas (CapsAD), que oferece tratamento ambulatorial e psicológico, sem internação.

Poucas vagas

As 180 vagas disponíveis para internação na cidade estão nos hospitais Municipal e Psiquiátrico, e em sete comunidades terapêuticas. O tratamento de desintoxicação, no Hospital Municipal dura até 15 dias.

Havendo necessidade de mais tempo, o paciente é encaminhado para o Hospital Psiquiátrico, onde pode ficar mais 28 dias, no máximo. Os trabalhos nas comunidades terapêuticas duram 9 meses, com direito a poucas saídas dos internos. A média geral de recuperação é inferior a 50%.

Após o tratamento, a maioria dos pacientes volta ao vício. Em todos os casos, tanto em hospitais, como comunidades terapêuticas, o paciente só é tratado se concordar. Não há estimativa oficial sobre quantos dependentes químicos estão sem tratamento em Maringá, mas, além da baixa taxa de recuperação, relatos de organizações não-governamentais apontam que as opções de tratamento são poucas diante da demanda.

Na unidade local do grupo Amor Exigente, organização não-governamental de apoio a dependentes químicos, cerca de 200 famílias pedem ajuda todos os meses, totalizando 2.400 famílias por ano — e a entidade não é a única que oferece esse tipo de apoio.

O diretor do programa antidrogas do município, Manoel Costa, diz que há mais entidades de tratamento a dependentes querendo se instalar em Maringá. O problema é a falta de dinheiro.

“Essas entidades precisam de muito apoio, não só do município como do governo federal. O maior problema é a obtenção de recursos”, diz. Costa calcula que o tratamento a um dependente químico nas comunidades terapêuticas custa R$ 900 por mês, entre gastos com hospedagem e funcionários — pago por meio de doações ou familiares do paciente.

No caso dos hospitais e CapsAD, os custos são bancados pelo Sistema Único de Saúde. “Estamos tentando combater o problema. É um tijolinho de cada vez, para um muro muito grande”.

Boom no consumo

A psicóloga Ângela Cecília Rezende trabalha há sete anos com pacientes dependentes químicos. Hoje, ela presta serviços no Recanto Jovem, comunidade terapêutica de Maringá que atende adolescentes.

De 11 garotos que estão em tratamento na entidade, dez são dependentes em crack. “Houve um boom no consumo de crack em Maringá nos últimos três anos. O tratamento dura nove meses e a estimativa é que metade tenha recaída quando sair daqui”, conta.

Ângela diz que os garotos que saem do tratamento são orientados a nunca colocarem uma gota de bebida alcoólica na boca ou tragarem um cigarro. “São orientações que devem ser seguidas pelo resto da vida deles. A dependência química é incurável, mas controlável”, explica.

Segundo a psicóloga, os maiores problemas para os adolescentes que concluem o tratamento é a família. “Uma das nossas exigências para a família dos pacientes é participar do grupo Amor Exigente. A falta de preparo das famílias para lidar com esses casos é um dos maiores obstáculos para a recuperação dos dependentes”, conta.
Autor:Fábio Linjardi
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas