Entrevista com Claiton Bau – Genética e Dependência Química

Com graduação em Medicina pela Universidade Federal de Santa Maria, mestrado e doutorado pela UFRGS, Claiton Henrique Dotto Bau é geneticista e professor associado do Departamento de Genética (UFRGS). Atualmente é também coordenador do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) e orientador do PPG em Ciências Médicas – Psiquiatria (UFRGS). Investigador em genética psiquiátrica, com ênfase no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e dependências de álcool e nicotina, Claiton é o entrevistado da semana. Em 1993, ao lado de seu colega Francisco Mauro Salzano, Claiton recebeu o Prêmio Jandira Masur (pesquisa em animais), oferecido pela Abead. Confira a entrevista que o especialista concedeu ao Boletim.

1. Filhos de pais alcoólatras podem herdar maior predisposição ao alcoolismo?

Os filhos de pessoas com problemas com o álcool têm sim um risco maior de desenvolver o problema. Mas esse risco é uma tendência geral, que não pode ser calculado para um indivíduo em particular.

2. O mesmo acontece com filhos de pais tabagistas? O fator genético tem maior influência em algum dos casos (tabagismo e alcoolismo)?

A mesma resposta dada para o alcoolismo vale para o tabagismo. A predisposição ao alcoolismo ou tabagismo na população resulta de um conjunto muito grande de fatores genéticos e do ambiente, e também das interrelações entre eles. No entanto, não é possível definir, para um indivíduo em particular, o tamanho relativo da predisposição que poderia ser explicada pelos genes ou pelo ambiente.

3. Se o pai e a mãe são dependentes de nicotina, o filho deste casal tem dobradas as chances de tornar-se um fumante?

Há evidências de que o tabagismo no ambiente familiar aumenta o risco dos filhos também desenvolverem o problema. Porém, essa predisposição pode ser fortemente influenciada por variáveis culturais, políticas públicas e até mesmo por características de comportamento dos pais e dos filhos, que podem aumentar ou diminuir esse risco.

4. O que existe de mais recente em termos de números e pesquisas relacionadas à genética em Dependência Química?

Está sendo produzido um acúmulo de conhecimento sobre o papel de vários genes que estão associados às dependências, mas cada um deles têm um efeito muito pequeno. Já esperávamos isso, tendo em conta os dados obtidos com estudos em gêmeos, adotados e famílias. Aos poucos, esse conhecimento está permitindo conhecer melhor a variabilidade existente na neurobiologia de diferentes sistemas relacionados com os mecanismos da dependência química.

5. O senhor está trabalhando em alguma linha de pesquisa no momento? Qual?

Sim. O nosso grupo vem se dedicando bastante a compreender os fatores associados ao uso de substâncias em uma amostra de pacientes adultos com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Buscamos compreender as interrelações entre genes e comportamentos externalizadores (desinibição, hiperatividade, impulsividade etc.) no surgimento do abuso de substâncias e outros problemas psiquiátricos.

Avaliamos o desenvolvimento dos indivíduos de uma maneira ampla, incluindo, por exemplo, a personalidade e os aspectos psiquiátricos, neuropsicológicos e genéticos. O estudo resulta da parceria entre membros de três instituições, os programas de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular e em Psiquiatria da UFRGS, e o Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade (PRODAH) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)