Lei seca: número de acidentes cai 29,4%

Iniciada há cerca de nove meses, a Operação Lei Seca começa a dar mostras significativas de sucesso. Só em novembro, o número de acidentes no Rio foi 29,4% menor que no mesmo período do ano passado. O número, divulgado ontem pela Secretaria estadual de Governo, pode ser o início de uma revolução no comportamento dos motoristas cariocas. Escolhida como tema desta semana na campanha “Nós e você. Já são dois gritando” (www.oglobo.com.br/doisgritando), a Lei Seca ajudou a criar o consenso de que beber e dirigir é uma completa irresponsabilidade.

O debate promovido pela campanha mostra que muitos motoristas já encontraram soluções para conciliar bebida com responsabilidade. Deixar o carro na garagem e chamar um táxi é uma das alternativas mais citadas. “Essas leis criadas não só contra o álcool, mas também contra o cigarro, mudaram o meu estilo de vida e o das pessoas com as quais convivo. Hoje, buscamos a segurança de beber perto de casa ou na casa de amigos”, escreveu a promotora de eventos Adriana Costa Siqueira.

Sinto repulsa quando vejo comentários contrários à lei” Mais contundente foi a participação do arquiteto Gabriel Figueiredo Padilha, pai da jovem Ana Clara, que morreu em 2006 num acidente na Lagoa Rodrigo de Freitas. “Infelizmente, meu desabafo traduz uma amargura sem tamanho, pois perdi uma filha de 17 anos por culpa de um motorista alcoolizado, que também morreu, junto a outros três jovens. Sinto repulsa quando vejo comentários contrários à lei”, relata o arquiteto de 56 anos.

Muitos internautas questionam, no entanto, a baixa tolerância ao álcool estabelecida para os motoristas. Hoje, o limite máximo permitido para o cidadão que se submete ao teste do bafômetro é de 0,1 miligrama de álcool por litro de ar expelido — equivalente a uma tulipa de chope. Se estiver acima desse limite, o motorista paga multa de R$ 957, tem a habilitação recolhida e o veículo rebocado.

No caso de o bafômetro acusar mais de 0,29 miligramas (o equivalente a três tulipas), o motorista responderá criminalmente.

“Acho que a resistência ao álcool varia de pessoa para pessoa, e a lei, da forma que está, fabricará milhares de criminosos primários.

Gostaria de ver tolerância zero contra políticos corruptos”, critica o publicitário Fernando Luiz Nogueira Pedrosa.

O rigor da lei afetou o bolso dos donos de bares e restaurantes.

Muitos estabelecimentos passaram a oferecer serviços diferenciados, como a criação de convênios com companhias de táxi. Mas esses mimos foram desaparecendo aos poucos, devido à baixa demanda.

— Quando as blitzes começaram, registramos uma queda de 8% no faturamento. Muitas casas fecharam e outras foram forçadas a reduzir seu horário de funcionamento — diz o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (SindRio), Alexandre Sampaio.

As operações de combate à bebedeira também serviram de mote para uma campanha em prol da conservação das ruas da cidade. Criado em julho, o movimento Asfalto Liso já vendeu mais de dois mil adesivos de protesto e conta hoje com 4,5 mil membros no site de relacionamentos Orkut.

— A iniciativa da lei é louvável, mas a população tem o direito de cobrar com a mesma veemência uma contrapartida por parte dos governantes, no sentido de aplicar nas vias a verba arrecadada com multas e tributos. Afinal, as péssimas condições do asfalto também provocam acidentes, assim como a bebida — diz um dos fundadores do projeto, o estudante de publicidade Lucio Amorim

Alertas na internet sobre blitzes causam polêmica No mundo virtual, as constantes blitzes também provocaram reações. O publicitário Eduardo Trevisan e mais quatro amigos administram uma página no microblog Twitter com informações sobre os locais onde estão acontecendo as inspeções. Em apenas quatro meses, a página batizada de “Lei Seca RJ” é um fenômeno inegável e já conta com quase 24 mil seguidores. Mas essa rede de informações gerou controvérsias, porque pode ser utilizada tanto por usuários que querem evitar congestionamentos, quanto por quem está dirigindo embriagado.

— Não estimulamos ninguém a beber e não temos nada contra a lei em si. Somos contra a hipocrisia, porque sabemos que a maioria das punições aplicadas recai sobre quem não pagou IPVA. Além disso, elas (as blitzes) provocam engarrafamentos monstruosos para, no fim das contas, flagrarem um percentual mínimo de motoristas alcoolizados — diz Eduardo.

O argumento de que o Twitter da Lei Seca presta um serviço de utilidade pública divide especialistas.

— O perigo é que esse tipo de conduta colabore para o descumprimento da lei. E isso é eticamente condenável — pondera o procurador-geral da OAB-RJ, Ronaldo Cramer.

— Passar adiante informações sobre o local de uma blitz não pode ser considerado crime, porque esse ato não está previsto em nenhuma lei — diz o advogado Marcelo Nogueira, professor de direito penal

Em novembro, 984 vítimas de acidentes na cidade Desde o início da fiscalização, 23.312 motoristas foram multados e 585 deles passaram a responder a processos criminais. De acordo com a Secretaria estadual de Governo, 984 pessoas foram vítimas de acidentes de trânsito na cidade no mês passado, contra as 1.393 registradas em novembro do ano passado.

— Além de reduzir o número de mortos nas ruas, a lei representa grande economia de gastos na saúde, porque desafoga as emergências — conclui o deputado federal Hugo Leal (PSCRJ), relator da Lei Seca.
Autor: Gustavo Autran
OBID Fonte: O Globo