O desserviço semanal de Veja

Por Alcoólico Anônimo

Prezados Amigos

Meu nome não será divulgado por motivos óbvios: sou um membro de Alcoólicos Anônimos.

Há coisa de 2 ou 3 meses a revista Veja publicou um texto pretensamente jornalistico defendendo a tese de que alcoolismo tem cura e que ela se obtém por meio de tratamento psiquiátrico e medicamentoso. Para justificar essa tese ela ouviu diversos médicos, farmacêuticos e fármaco-bioquímicos. Não li a revista (o alcoolismo tornou meu estômago fraco para venenos fortes) mas um amigo me passou a reportagem e, percebia-se claramente no pano de fundo e nas entrelinhas que a idéia era a de que “você pode beber o quanto quiser, se você tomar tais e tais medicamentos, você estará bem”. A impressão que me deu, então, era de que a matéria havia sido escrita por encomenda de fabricantes de bebidas e de remédios além de alguns profissionais de saúde com o intuito de defender o “prazer de se embebedar”.

O AA recomenda a seus membros não entrar em controvérsias ou expor a entidade a polêmicas.

No entanto a matéria que saiu na edição dessa semana daquela revista expõe claramente que a reportagem anterior foi um ensaio para a revista execrar o maior movimento mundial (presente em mais de 180 países) de trabalho de recupareção de dependentes do álcool. A OMS considera o alcoolismo ou dependência etílica uma doença incurável e progressiva. O AA é o maior movimento de ajuda ao dependente etílico, presente em mais 180 países e com mais de 2 milhões de membros ativos em todo o mundo. Para o AA o único requisito para ser membro é o “sincero desejo de parar de beber”.

A pesquisa apresentada na “reportagem” da Veja é totalmente eivada de falhas metodológicas e, apesar da revista se respaldar em entidades como a UNIFESP, PROAD e SBPsiquitria, nota-se pela sua leitura uma intenção perversa de denegrir o movimento Alcoólicos Anônimos.

Espero que a Junta Nacional de AA no Brasil, representada por pessoas não-alcoólicasdo mais alto gabarito se manifeste e consiga (sei do quento isso é difíecil) espaço para resposta nessa publicação nefasta do Sr. Civita.

Atenciosamente

Um Alcólico Anônimo em recuperação.

Comentário do Nassif

É daquelas reportagens sem pé nem cabeça, padrão Veja.

A reportagem começa mostrando a ineficácia do sistema dos Alcóolicos Anônimos.

O problema é que menos de 19% dos que lá ingressam mantêm a assiduidade exigida – o que conduz à segunda notícia: as chances de uma pessoa conseguir parar de beber por meio do ingresso no AA são as mesmas de quem tenta fazer isso sem ajuda nenhuma. Em outras palavras: o AA, segundo o estudo da Unifesp, não funciona – ao menos não sozinho.

Prossegue com conclusões acacianas:

De acordo com o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Proad, o método dos Alcoólicos Anônimos é particularmente ineficaz para duas categorias de alcoólatras: os que têm dificuldade de falar em público, uma vez que a verbalização da doença está na base do tratamento da associação, e os que sofrem de algum tipo de problema psiquiátrico – caso de três em cada quatro dependentes de álcool, afirma ele.

Depois, começa a demolir as teses que serviram de base para a matéria:

O psicólogo americano William Richard Miller, professor aposentado de psicologia e psiquiatria da Universidade do Novo México, analisou uma série de pesquisas sobre a eficácia do AA, algumas apontando taxas de recuperação de até 81%. Chegou à conclusão de que muitas delas apresentavam resultados inflados, por causa de erros metodológicos. Em compensação, obteve um dado animador. Descobriu que a participação assídua em grupos de autoajuda faz crescer em até 10% a chance de abstinência no caso de um dependente de álcool que já esteja em tratamento psiquiátrico.

Até participantes em tratamento psiquiátrico são beneficiados, segundo outras fontes consultadas:

Embora admita que o AA tem limitações, o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo, afirma que não se pode desprezar a sua relevância, sobretudo para “os que não podem arcar com os custos de um tratamento médico e aqueles que possuem algum tipo de crença espiritual”. Tanto isso é verdade que os doze passos hoje já não são usados exclusivamente pelos grupos de autoajuda. “Muitas clínicas de recuperação de dependentes de álcool adotam a cartilha”, diz o psiquiatra Marcelo Niel, do Proad.

Ou seja, em um caso raríssimo a reportagem ouviu todas as partes. Na hora de juntar as partes, deu essa confusão. Repito: o problema da Veja é que anos de manipulação fizeram com que a cultura interna da revista desaprendesse princípios básicos de reportagem e de redação jornalística.
Fonte:Luis Nassif Online,Blog/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)