Vinho é bom para o coração?

Quando nos deparamos com uma situação de confronto, podemos estar cometendo injustiças ao tomar decisões precipitadas.

O álcool em geral, não somente o vinho, vem sendo considerado um aliado na saúde do coração, um protetor, especialmente o vinho tinto, por conter substâncias antioxidantes, como o resveratrol.

Dentre os efeitos benéficos, o mais expressivo provavelmente é o aumento do HDL colesterol, o colesterol bom. Se considerarmos o vinho como remédio, quais são a dose e a frequência deste medicamento? Depende do peso da pessoa? Do sexo? Dos alimentos ingeridos? Ou seja, o ato de beber vinho como efeito protetor merece uma discussão mais profunda.

Nesse contexto não podemos deixar de levar em conta o alcoolismo, e as consequências da ingestão excessiva, tais como: os acidentes de trânsito, as descompensações de doenças cardiológicas (ex.: hipertensão arterial, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca), e também os efeitos deletérios sobre o sistema nervoso central, digestório e psicológico, dentre outros. Portanto, não podemos demonizar e muito menos endeusar o consumo do vinho, mas devemos discutir estes fatos com os nossos pacientes.

Os homens se beneficiam de uma dose de álcool entre 20-25 gramas, e as mulheres algo entre 16-20g. Uma taça média de 150ml de vinho tinto com teor alcoólico de 14% já contemplaria a dose com efeito protetor.

Não se deixem levar pelo número de taças, pois as taças variam muito no seu volume, temos algumas que comportam 500ml. Cuidado! De maneira geral, falamos em uma taça de tamanho pequeno para as mulheres e duas para os homens. Não vale encher a taça até a boca! Deixo uma dica: pergunte ao garçom se existe meia garrafa de vinho (375ml) ou o vinho em taça.

Caso você tenha histórico na família de alcoolismo, ou apresente alguma doença associada, como diabetes, hipertensão arterial, arritmia e/ou insuficiência cardíaca, gastrite, problema psiquiátrico ou neurológico, converse com seu médico sobre o uso do álcool.

Quando pergunto aos pacientes sobre o consumo de álcool, uma das respostas mais frequentes é: “Bebo com moderação.” Pergunto então o que é beber com moderação? A resposta mais comum é: “Sou capaz de beber e dirigir.” Devemos lembrar que cada organismo responde de uma maneira à ingestão de álcool, e achar que só estamos bebendo muito quando somos incapazes de dirigir, ou ao apresentarmos mudanças de comportamento, já estamos muito acima do teor alcoólico que pode trazer benefícios ao nosso coração, senão malefícios ao nosso organismo.

Pesquisa publicada em 2009 na revista “American Journal of Cardiology”, pela dra. Maryline Forster e cols, envolvendo 5.769 adultos com idades entre 35 e 75 anos, comparou a mortalidade cardiovascular daqueles que nada bebiam com os que bebiam regularmente. Naqueles que bebiam entre 7 e 13 drinques por semana, a mortalidade cardiovascular era menor quando comparada com os que nada bebiam. Mas os que bebiam mais de 14 drinques/semana tinham maior mortalidade do que aqueles que nada bebiam ou dos que bebiam até 13 drinques/semana.

A explicação para tal fato é que, em doses maiores de álcool, o efeito protetor do vinho de aumentar o HDL é superado pelo efeito negativo do aumento da pressão arterial que o consumo exagerado do vinho pode produzir.

Em conclusão, o vinho pode ser bom ou ruim para o coração, dependendo da quantidade consumida. Beber com moderação implica limites.

Nós, médicos, temos muita responsabilidade nesta questão, e podemos ajudar em muito os nossos pacientes, ouvindo e discutindo com eles os benefícios e malefícios que envolvem a ingestão de bebidas; e ressalto que ainda não há registro de diretrizes de sociedades médicas indicando de maneira formal o vinho como remédio. Para finalizar, vale a pena lembrar a frase do grande filósofo Aristóteles: a virtude está no meio (Virtus in medium est). Saúde, salute, santé, salud…
Autor:Claudio Domenico,cardiologista,O Globo
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)