Livres do vício, ex-fumantes descobrem vida nova e energia de sobra

A escolha de parar de fumar traz benefícios a curto e médio prazo, grupos de apoio fazem parte do caminho da liberdade

José Carlos admite que a vontade de fumar persiste, mas já não abre mão da qualidade de vida reconquistada

“Sou um sobrevivente”, esta é a primeira declaração de José Carlos de Sousa, professor do curso de Física da Universidade Estadual de Maringá, em entrevista concedida, na qual conta como se tornou um ex-fumante. A história dele com o cigarro começou cedo. Ele acendeu o primeiro aos onze anos e só parou de fumar quarenta e sete anos depois.
O dia 18 de junho de 2006 entrou para o rol das comemorações da família, data em que o professor abandonou de vez o cigarro. “Você não quer parar porque o hábito de fumar é prazeroso e se tem uma coisa que incomoda o fumante é ter um monte de gente dizendo que ele tem de largar o cigarro”, diz.

A reviravolta aconteceu quando a esposa de José Carlos o inscreveu em um programa de apoio da própria universidade. Um tanto resistente, o professor acabou aceitando a ajuda “para agradar a esposa” e foi, assim, com provas de amor dos dois lados, que a história de vida começou a mudar. O período regular de cada grupo de apoio é de quatro semanas, tempo em que a pessoa recebe toda a atenção de profissionais especializados e pode dividir experiências com pessoas que estão na mesma situação.

Para José Carlos foram três meses de espera até conseguir uma vaga e foi então que, pela primeira vez, ele se deu conta do quanto era dependente químico e psicológico do cigarro. Logo de início, a abordagem do grupo multidisciplinar – enfermeiros, psicólogos, entre outros profissionais – envolvido no projeto fez toda a diferença.

Segundo ele, o fumante conhece como poucos os malefícios do cigarro. “Pouca gente é tão bem informada sobre o assunto, por isso de nada adianta tentar induzir a pessoa a deixar o fumo, se ela não se sentir motivada. A crítica é o pior caminho”, comenta o professor antes de acrescentar: “Lá (grupo) encontrei uma recepção diferente. O foco era a qualidade de vida. Aí sim comecei a me convencer de que era uma boa ideia”.

O caminho até a superação do vício nunca é fácil e para José Carlos também não foi, mas o professor universitário, que atravessa a piscina olímpica duas vezes mergulhando, aos 61 anos, acha que valeu a pena. Antes da primeira reunião do grupo José Carlos fumou três cigarros, enquanto esperava a hora de entrar. Hoje, percorrendo o mesmo caminho que separa os prédios da universidade, ele sente o aroma das plantas e da terra úmida.

Fica até difícil de acreditar que o odor lhe passava despercebido, porque o fumo compromete o sentido do olfato. “Eu não sei precisar o momento em que decidi abandonar o cigarro, mas participando dos grupos chega esse momento em que você se compromete e vai atrás. Minha vida mudou completamente”, reforça.

Resultados

A maioria dos pacientes do programa da UEM está na faixa dos 40 a 50 anos. Eles eram jovens nas décadas de 70 e 80, quando o cigarro representava um sinal de status e liberdade, mas depois de adquirir o hábito, ficou quase impossível vencê-lo sozinho. No mesmo grupo, jovens de 18 e 19 anos, também procuram apoio. “

Nós orientamos as pessoas a como lidar com a síndrome de abstinência, as crises de ansiedade e um ajuda o outro. É por isso que funciona”, diz a psicóloga Maria Lúcia Dantas, uma das profissionais que atende os grupos de apoio da UEM.

Em 2008, o programa obteve resultados animadores: cerca de 67% das 200 pessoas atendidas conseguiram abandonar o vício. “O segredo está na abordagem cognitiva e no apoio muldiscipli-nar”, afirma. O time conta com nutricionistas, psicólogos, psiquiatras e enfermeiros especializados.
Autor:Juliana Fontanella – Douglas Marçal
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas