Cigarro enfraquece parede de vasos

Há pessoas que se vangloriam de fumar a “vida inteira” e não ter sequer um problema de saúde. A questão, segundo o cardiologista Ricardo Rodrigues, de Londrina, está no mesmo conceito da farmacogenômica, estudo das variações individuais na resposta aos medicamentos – nem todos respondem do mesmo jeito à mesma agressão. Mas, se existe uma minoria que tem maior resistência, o fato é que não dá para saber de qual grupo se faz parte. Pesquisa feita em São Paulo mostra que o ambiente livre do tabaco protege até mesmo os fumantes.

Quando o assunto é cigarro, os números são implacáveis. A nicotina, alerta o cardiologista, é responsável por 2/3 do risco cardiovascular no mundo. E mais: quem fuma tem 70% de chance de enfartar até a morte, se viver até os 90 anos.

No organismo humano, o monóxido de carbono, um dos principais componentes da fumaça do cigarro, concorre com o oxigênio – isso significa menor oxigenação do sangue, células e tecidos e, consequentemente, maior oxidação. Aos poucos, essa condição metabólica acelera o envelhecimento do endotélio, camada de células que forma a parede de vasos e artérias do corpo humano.

Em um processo em cascata, surgem inflamações e obstruções dessas vias de passagem do sangue no organismo, que, nessa condição, não conseguem alimentar de oxigênio e nutrientes as células, tecidos e órgãos. Esse processo de envelhecimento acelerado dos vasos é conhecido como aterosclerose e sua evolução leva à ocorrência de infarto do miocárdio e de acidente vascular cerebral, além de trombose. No paciente que tem diabetes e por isso mesmo uma condição mais frágil dos vasos, o risco aumenta.

O resultado do estudo do Incor, para a cardiologista Jaqueline Issa, coordenadora da pesquisa, reforça a importância da proibição de se fumar em locais coletivos. No Paraná, a Lei Antifumo, que proíbe consumo de cigarro em locais de uso coletivo, públicos ou privados, passou a vigorar no final de novembro.

“Não há ambiente seguro para o ser humano com qualquer concentração de fumaça do cigarro no ar. Os resultados enterram de vez o conceito do fumódromo até mesmo em locais parcialmente fechados”, diz a pesquisadora. “A forma de inalação da nicotina é tão efetiva que só aspirando a fumaça, a pessoa já está ´fumando´. Há trabalhos que mostram que um garçom ´fuma´ o equivalente a 10 cigarros em quatro horas de trabalho”, completa Rodrigues.

Ele lembra ainda que as substâncias nocivas presentes no cigarro, além da nicotina, contribuem para aumentar o risco de câncer, principalmente de pulmão, laringe e boca.

Parar de fumar traz uma série de benefícios para a saúde, como melhora da capacidade cardiopulmonar e estabilização ou diminuição da velocidade de progressão das lesões já formadas nos vasos, mas não é fácil. “A dependência é física e psicológica. Por isso, os tratamentos tem que ser multiprofissionais, com uso de medicamentos e acompanhamento com psicólogo”, ressalta Rodrigues.
Autor: Editoria Geral
OBID Fonte: Folha de Londrina