Prefeitura de SP “exonera” servidores do vício em álcool e drogas

O posto de vigia noturno na escola municipal Wladimir Herzog, na zona leste, caía como uma luva na descompensada rotina de João Carlos Barreto, 53 anos. “Não tinha companhia no turno, então passava em algum boteco antes, tomava todas e já chegava encachaçado para trabalhar”, lembra o funcionário da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

Rafael* era um funcionário-problema para a Subprefeitura de Cidade Tiradentes. Como atuava na limpeza urbana, circulava muito pelas ruas, não tinha vínculo fixo com a chefia e, nesse contexto, considerava-se livre para tomar quantos tragos queria. “Era o dia inteiro, parando de bar em bar. Tinha horas que voltava para o serviço e estava completamente fora de mim”, recorda. Convidado a participar do programa de recuperação interno, inicialmente relutou muito. “Vinha nas reuniões, mas meio que obrigado, só para os outros verem. Eu mesmo não acreditava que precisava parar.” Um dia, como conta, escutou um depoimento comovente de um colega que passava por uma situação parecida. “Fez sentido para mim.” Também encaminhado para consultas com psiquiatras, ele foi vencendo etapa por etapa do processo de cura. “Parei de ser brigão, encrenqueiro”, conta ele. De volta ao trabalho de cara limpa, ele evoluiu tanto que, hoje, é chefe do próprio departamento. “Agora, uso a malícia que tenho com minha experiência para coordenar a equipe sem escorregar”, argumenta.

Estéfano Vig Filho, por sua vez, era tentado pela proximidade com o bar. Porteiro da Subprefeitura da Penha, ele fazia várias viagens rápidas até o outro lado da rua para bebericar. “Chegava a tomar mais de uma garrafa de pinga. Era pertinho. Ia e voltava o dia todo”, conta.

Rafael*, responsável pela manutenção das vias na Subprefeitura de Cidades Tiradentes, era outro que vivia “alto” no serviço. Como sempre estava pelo bairro, retirando entulho dos entornos, não tinha controle rígido da chefia e abusava. “Ia parando e tomando umas. Era cachaça, cervejinha. Terminava o dia fora de mim”, recorda.

Se chegassem ao ouvido de muitas chefias, essas três histórias fatalmente decretariam a expulsão do emprego ou, pelo menos, o afastamento temporário de seus protagonistas. No entanto, o governo paulistano tem abolido o preconceito e enfrentado a hipocrisia para, ao invés de excluir, acolher e tentar curar os servidores que enfrentam o vício em álcool ou nos narcóticos.

Como explica Luiz Alberto Chaves, coordenador de atenção às drogas da Prefeitura, as abordagens ingênuas já se mostraram inúteis. “Não adianta empurrar para debaixo do tapete. Setenta e cinco por centro dos viciados em substâncias ilícitas estão trabalhando. E metade dos 12,3% dos brasileiros alcoólatras também. É um problema da sociedade e não estamos livres disso”, argumenta.

Legalmente, há uma portaria recomendando, de forma geral, que os departamentos de recursos humanos de todos os órgãos da cidade enfrentem esse tipo de situação. Não existe, porém, uma fórmula única para organização desse serviço, o que criou modelos diferentes pelo município. Todos, aliás, apresentam resultados positivos – os personagens citados no início desta reportagem, por exemplo, estão regenerados e continuam no governo.

João Carlos Barreto era vigia noturno em uma escola municipal (atrás dele, na foto) em Cidade Tiradentes, na zona leste. Como sabia que não encontraria ninguém no seu turno, abusava do álcool antes mesmo de chegar ao serviço. “Ou já vinha ´quebrando´ umas de casa ou então parava em um bar para abastecer”, conta. Já “no grau”, ele entrava na guarita e iniciava sua função. “Só dormia, né? Imagina ficar naquela escuridão depois de ter tomado tudo aquilo”. Como tinha depressão, em certo momento decidiu procurar os médicos do Hospital do Servidor. “Lá, além de descobrir que meu problema tinha como raiz a bebida, fui orientado a participar do programa de recuperação da Subprefeitura de Cidade Tiradentes.” Após começar a freqüentar as reuniões, encontros com supervisão do A.A., ele percebeu que tinha um desvio grave e prometeu para si mesmo que iria sair daquela vida. “Antes, os médicos tinham uma carta me proibindo até de chegar perto das crianças. Hoje, mudei para o dia e minha maior alegria é ficar do lado delas”, conta.

A Subprefeitura de Cidade Tiradentes, no extremo da zona leste, é considerada a pioneira nesse atendimento. Em parceria com os Alcoólicos Anônimos (A.A.) e a Secretaria Municipal de Saúde, o órgão administra desde 2005 reuniões semanais com os funcionários que, por indicação das chefias imediatas, estavam apresentando comportamentos inadequados no expediente. “Ninguém é obrigado a ir. Mas sabemos que as pessoas são nosso maior patrimônio e tentamos ao máximo trazê-las para debater cada situação”, conta Aleci de Freitas, responsável pelo projeto.

No total, nesses quatro anos, mais de 30 servidores já passaram pelo tratamento – que inclui visitas aos psiquiatras da rede pública e encaminhamentos para o A.A, que promove encontros mais rotineiros e pode ajudar os alcoólatras com mais propriedade.

Para quem não consegue suportar o processo de cura e volta a beber, as regras pregam um misto de entendimento e rigidez. “Se chegar bêbado ou começar a atrapalhar os demais, não podemos esquecer que há sim punições administrativas. Mas, com o tempo, o próprio funcionário tende a perceber que precisa de ajuda”, diz Aleci.

Na Subprefeitura da Penha, com um conhecimento adquirido em estudos e pesquisas, Rosemeire Bueno, responsável pelo programa no departamento de recursos humanos, também faz ações semelhantes. “Quando entrei aqui, há quase dois anos, passava pelos corredores e encontrava algumas pessoas alcoolizadas. Isso me incomodava demais”, lembra. “Senti que minha missão era promover uma melhora desse quadro”, diz.

Estéfano Vig Filho era lotado em uma posição ingrata. Porteiro da Subprefeitura da Penha, na zona leste, ele trabalhava na entrada da sede do órgão, bem de frente a um bar. Alcoólatra desde a juventude, essa proximidade o fazia ir periodicamente ao outro lado da rua. “Tomava quase duas garrafas de pinga por dia. Trabalhar, sem condições”, lembra. Um dia, fora de si, ele brigou com a chefe e acabou suspenso por cinco dias. Arrependido, entrou no programa de recuperação de servidores. Após ser encaminhado a um psiquiatra, começou a debater seu problema com especialistas e foi transferido para a jardinagem, onde seus olhos não alcançavam com tanta facilidade as prateleiras dos botecos. Nessa fase, decidiu parar de tomar suas cachaças. Depois de um ano longe das bebias, curado, pediu para voltar para seu posto inicial. “Gosto de lidar com as pessoas, de ajudar”, diz, orgulhoso, o hoje (novamente) porteiro da subprefeitura.

No início, como explica, havia muita resistência. O preconceito fazia com que os colegas de trabalho tivessem vergonha de assumir o vício perante o outro. “Fiz uma capacitação das chefias, ensinando que se tratava de uma doença que precisava ser enfrentada, não de um bando de sem-vergonhas”, afirma.

Vários nomes foram enviados a ela, que começou a conversar pessoalmente com as pessoas. Aos que gostavam da abordagem, tentava um diálogo com a família e fazia entrevistas com os dependentes para saber como poderiam ser melhor utilizados pela subprefeitura. “Muitas vezes, eles precisavam ser mais valorizados para se sentir melhor. Fazia esse tipo de movimentação de pessoal, além de encaminhar quem precisava para o sistema de saúde do próprio governo”, recorda.

Como pondera Luiz Alberto Chaves, da coordenadoria de atenção às drogas da prefeitura, o novo modelo que vem sendo seguido de forma descentralizada pela administração municipal é exemplar. “Nesse caso, a medicina e a ciência já nos mostram que existe um tratamento viável. Então, nada mais óbvio do que mergulhar nesse esforço”, diz.

Segundo ele, pode ser notado inclusive um efeito “dominó” nas repartições. “Cada recuperação de sucesso traz outras. Todos olham que fulano melhorou, que está bem com a família e não vive mais cheio de encrenca. Transmite aos outros a vontade de se regenerar também”, analisa.
*O nome foi alterado a pedido do entrevistado
Autor:Arthur Guimarães – Do UOL Notícias – Em São Paulo
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas