Remédios não são capazes de evitar nem curar ressaca

Num país de “bebedores excessivos”, a época das festas é propícia a excessos. Há dezenas de receitas e cada vez mais produtos para combater a ressaca, mas o único eficaz é não beber, dizem médicos.

O único remédio eficaz para evitar a ressaca é não beber de todo ou beber moderadamente. O conselho, dado com humor, é do médico Martins Baptista, que todos os anos recebe vários casos de intoxicação nas urgências do hospital Pulido Valente, em Lisboa, devido aos excessos de fim de ano. É que os outros remédios, medicamentos ou tradicionais, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante.

“Nunca vi nenhum estudo que comprovasse a eficácia desses remédios”, disse ao DN. Aliás, dois cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Indianápolis, nos EUA, foram mesmo à procura de estudos sobre essas curas tradicionais e concluíram que nenhuma delas tem qualquer fundamento científico.

Por outro lado, há medicamentos à venda que podem aliviar alguns dos sintomas, como a dor de cabeça ou os vómitos, mas não conseguem evitar a ressaca ou “curá-la”, afirma o médico Luís Paulino.

As dores de cabeça e de estômago, a boca seca e o cansaço são alguns sintomas de uma “doença” que pelo menos tem uma causa clara: os copos a mais bebidos na noite anterior.

A explicação científica também é simples: cerca de 90% do álcool ingerido é processado pelo fígado e transforma-se em acetaldeído, uma substância altamente tóxica. Há outros factores que podem influenciar a absorção do álcool pelo organismo: beber com o estômago vazio; o tipo e qualidade da bebida; ou a constituição física da pessoas, diz Luís Paulino.

“Somo um país de bebedores excessivos e este época e propícia a excessos”, lembra João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). A única maneira de evitar a ressaca, insiste, é beber de forma moderada. Mas o que é beber moderadamente? Cerca de três bebidas, “uma quantidade compatível com a condução de um carro, porque a partir dos 0,5 de álcool no sangue já há alterações de resposta e comportamento”, explica. E uma bebedeira é uma agressão capaz de causar lesões permanentes no fígado e no cérebro, explica. Lesões que não passam, ao contrário dos sintomas desagradáveis da ressaca.

Mas quando o mal já está feito, em vez de se recorrer a curas milagrosas, deve-se beber muita água, para hidratar, diz Luís Paulino. Aliás, o ideal é começar por acompanhar os copos de vinho ou de vodka com copos de água. “Tomar um analgésico para dor de cabeça e vitaminas para ajudar a metabolizar o álcool também ajudam, mas o melhor é repousar”, conclui. Já a ideia de que outra bebida alcoólica ajuda a curar a ressaca não só é falsa, como é o primeiro passo para o alcoolismo, adverte.
Autor:Patrícia Jesus – Hoje
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas