Vale das bolinhas

Rio de Janeiro – Brittany Murphy, a atriz americana encontrada morta na semana passada em sua casa, em Los Angeles, aparentemente de um ataque cardíaco, tinha 32 anos. Muito jovem para morrer assim, e sem qualquer aviso prévio. Mas, para nenhuma surpresa deste departamento, encontraram em seu quarto um vasto suprimento de analgésicos, ansiolíticos, antidepressivos, soníferos e antibióticos.

Quando se fala em vasto suprimento, no caso de artistas do cinema ou da música popular, isso significa uma quantidade quase inconcebível para os amadores que já não conseguem passar sem o seu Lexotanzinho diário. São dezenas, centenas de caixas – milhares de comprimidos, conseguidos através de receitas em nome próprio, no nome da mãe, da amiga, da empregada ou de quem quer que seja. Afinal, são remédios “controlados”.

A polícia de Los Angeles apressou-se em decretar que a morte de Brittany se deu por “causas naturais”. Ou seja, não foi acidente, assassinato ou suicídio, e também não se encontraram drogas ilegais. Mas até que ponto pode-se considerar “natural” uma morte provocada pelo massacre químico diário do organismo durante anos?

Por algum motivo, as pessoas resistem a admitir que muitos desses remédios pesadíssimos, que os profissionais acham mais fácil prescrever do que retirar, acabam estabelecendo dependência e, pelo renitente bombardeio, podem levar à morte por simples cansaço precoce do organismo.

Não deve ser por acaso que Carmen Miranda (morta aos 46 anos, em 1955), Marilyn Monroe (aos 36, em 1962), Judy Garland (aos 47, em 1969), Elvis Presley (aos 42, em 1977), Michael Jackson (aos 50, em junho último) e, agora, Brittany Murphy, entre muitos outros, tivessem em comum um armário cheio de comprimidos.
Autor:Ruy Castro – Folha de São Paulo
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas