Autoconhecimento contra o cigarro

Há dois meses, um grupo de 52 pessoas se reúne em sessões realizadas no departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) para “aprender” a deixar de fumar. Batizado de Conduta Determinada, o projeto de pesquisa pretende fazer com que os dependentes de tabaco deixem o vício em até 12 semanas, praticando o autoconhecimento e, consequentemente, o autocontrole.

Conforme a coordenadora do programa, a psicóloga Maria Luiza Marinho Casanova, a técnica é uma adaptação de um programa espanhol, que prevê o uso de marcas com menor teor de nicotina e a diminuição gradual do número de cigarros consumidos num dia como os principais passos para abandonar o tabagismo.

Os participantes, divididos em cinco grupos, são assistidos por uma psicóloga e dois estagiários em sessões semanais. Além das discussões sobre as dificuldades e a definição das metas para a semana seguinte, os fumantes passam pelo teste do monóxido de carbono. “Temos um aparelho semelhante a um bafômetro, no qual a pessoa sopra para medir o nível de CO2 no organismo”, informa Maria Luiza.

“Distribuímos um saco plástico transparente para cada participante transferir os cigarros do maço e ter mais controle sobre o quanto fuma diariamente”, cita a psicóloga. Segundo ela, a técnica auxilia o fumante a pensar antes de acender o cigarro e a evitar o fumo de forma automática. “Ele presta mais atenção nos hábitos ligados ao cigarro e se realmente precisa fumar naquela circunstância.”

Na pesquisa, a equipe, formada pela coordenadora, duas psicólogas e oito estagiários, descobriu que os homens se mostram mais ágeis que as mulheres quando decidem parar de fumar. Entre os 52 participantes dos grupos, pelo menos 10% já deixaram o cigarro em dois meses de tratamento.

“Os resultados têm sido positivos, principalmente porque não preconizamos o uso de nenhum medicamento, diferente de outros tratamentos”, avalia Maria Luiza. Para a psicóloga, o medo também não ajuda ninguém a parar: “Por isso não ficamos falando das doenças decorrentes do tabagismo. Todo fumante conhece os riscos que está correndo.”

Estímulo

Entre os participantes que já conseguiram parar de fumar estão Odylon Mendes e Luiz Favero, ambos com 67 anos e mais de 50 anos de tabagismo. “Comecei a fumar com 11 anos, por curiosidade”, justifica Favero, que no dia da entrevista estava há quatro dias sem fumar.

Há quase um mês sem acender um cigarro, Mendes confessou que usou todo tipo de medicamento para tentar parar. “Fumava entre 30 e 40 cigarros por dia”, conta o ex-fumante, que decidiu abraçar a vida: “Digo sempre que se fosse para viver só por mais um segundo, ainda assim eu pararia de fumar.” Ele chegou a gastar R$ 650 num único remédio, mas só encontrou a saída no programa. “Coloquei na cabeça que tinha que parar e parei.”

A hora do cafezinho ainda é a mais difícil para João Vitorelli, 53 anos, que decidiu buscar ajuda para abandonar o tabaco depois de ter sofrido dois infartos. “Fumante sabe que cigarro faz mal, mas detesta quando pedem para parar. Ele precisa decidir e ir devagarzinho”, diz. “Quero ficar mais bonito, mais cheiroso e viver mais uns dias”, brinca.
Autor: Mariana Guerin
OBID Fonte: Folha de Londrina