Na esteira da venda de crack, vêm outros crimes, como roubos e furtos

Além da 314/315, outro ponto da Asa Norte chama a atenção pela movimentação imposta pelo crack. Na 710, o tráfico e o consumo das pedras ocorrem entre a comercial e as casas e prédios residenciais. Áreas usadas como estacionamento durante o dia se transformam em corredor da droga à noite. É preciso apenas que as lojas voltadas para as 700 encerrem o expediente no fim da tarde para que o comércio noturno tenha início. As negociações e o uso são realizados a poucos metros dos lares dos moradores da região.

Quem circula por ali reclama da insegurança. São comuns roubos e furtos, a maioria praticados por crackeiros. “Eu salvei uma mulher de um assalto faz poucos dias. Ela vinha com um bebê e alguns jovens só não a assaltaram porque passei de carro e falei para ela entrar no veículo o mais rápido possível. Não dá mais esse crack por aqui”, reclamou um morador da 710 Norte, também funcionário de uma loja da localidade. Segundo ele, o comércio de drogas avança a madrugada e mantém a vizinhança acuada e com medo — quase todas os imóveis têm muros altos, alarmes e cercas eletrificadas.

A circulação das pedras na 710 Norte pode ser medida a partir da mais recente apreensão ocorrida no lugar. No último dia 26, um sábado à noite, policiais militares encontraram 200 pedras em poder de dois adolescentes. O flagrante ocorreu às 18h40, quando a dupla desceu de um ônibus e ficou a perambular entre as quadras comercial e residencial. A inquietação deles chamou a atenção da PM, que os surpreendeu em flagrante. Os garotos prestaram depoimento na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) e devem responder a processo por tráfico de entorpecentes.

Dificuldades

O tenente Jerônimo Araújo, da Comunicação Social da Polícia Militar do Distrito Federal, admitiu dificuldades no combate à escalada do crack na Asa Norte. Segundo ele, porém, as variáveis que tornam propício o tráfico de drogas na região e na capital do país são mais sociais do que de segurança pública. “O policiamento ostensivo está equilibrado entre a Asa Sul e a Asa Norte. É proporcional. Historicamente, no entanto, a Asa Norte sempre teve mais pontos de tráfico. Desde 1970 há pontos de prostituição, o que também atrai a venda de entorpecentes”, explicou.

Araújo disse ainda que a localização da Asa Norte contribuiu para a proliferação de traficantes e usuários das mais diversas drogas. “O bairro fica próximo ao Varjão do Torto, que recebe muita droga da Bahia, do Nordeste. São fatores como esses que contribuem para o maior número de pontos de tráfico, que sempre houve no fim da Asa Norte”, afirmou o tenente. As operações da Polícia Militar do DF se espalham pelo bairro, mas estão concentradas nas quadras 314, 315 e 710 Norte. Houve intensificação no último mês.

Para o delegado-adjunto da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), Rogério Borges Cunha, a pulverização do tráfico de crack dificulta as estratégias de combate. Além de as pedras serem de fácil manuseio, os craqueiros mudam de local de atuação a cada ação policial. “A gente atua em um determinado lugar e eles logo vão para outros. Os clientes contam com a mesma facilidade e descobrem rápido os novos pontos”, revelou Cunha. A Polícia Civil ataca o comércio de crack não só com as delegacias locais. A Coordenação de Repressão às Drogas investiga os traficantes de grande porte.

Operação especial

A diretora do Conselho Comunitário de Segurança de Brasília, Maria Alice Caetano, acredita que os descampados da Asa Norte contribuem para a presença de traficantes e viciados. São áreas isoladas, de cerrado e sem urbanização, onde funcionam pequenas bocas de fumo. Algumas inclusive no Parque Burle Marx, entre a 908 Norte e o futuro Setor Noroeste. “Na Asa Sul, há menos locais disponíveis. Na Asa Norte, por ser mais nova, também há menos opções de lazer e ainda muito a construir”, avaliou Maria Alice, também vinculada à Subsecretaria de Proteção às Vítimas da Violência (Pró-Vítima).(1)

A entidade prepara para este ano operação em conjunto com as polícias Civil e Militar, a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), a Secretaria de Saúde e o Conselho Tutelar. “Será na Asa Norte, pois é onde se concentra o problema do crack. Faremos um trabalho voluntário de abordagem e convencimento com os usuários. Vemos por que não está na escola, com a família e mapeamos o problema”, contou a diretora comunitária. O trabalho será marcado de acordo com a disponibilidade dos órgãos envolvidos. (GG)

1 – Assessoria

O programa da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do DF existe desde março de 2009. Tem como finalidade dar visibilidade aos direitos dos cidadãos atingidos direta ou indiretamente por crimes violentos, assegurando atendimentos multidisciplinares nas áreas psicossocial e jurídica.

Fique atento

Onde buscar ajuda:

Caps-AD (Guará): 3567-1967

Caps-AD (Sobradinho): 3591-2779

Como denunciar:

Polícia Militar: 190

Polícia Civil: 197
Fonte:Correio Brasiliense – Guilherme Goulart/UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas