Apenas um em cada 25 municípios tem tratamento gratuito para dependentes de álcool

De acordo com o Ministério da Saúde, dependentes de álcool e outras drogas podem procurar auxílio nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Das 1467 unidades de atendimento no país, apenas 223 são especializadas no tratamento de álcool e drogas (as conhecidas Caps-AD).

Na semana passada, para reduzir o consumo de bebidas alcoólicas na Rússia – que chega a 18 litros de álcool puro per capita por ano -, o presidente, Dmitry Medvedev, impôs um preço mínimo de US$ 3 (pouco mais de R$ 5) para uma garrafa de meio litro de vodca. Para o coordenador de divulgação do escritório dos Alcoólicos Anônimos (AA) de São Paulo, Hugo Leal, a medida implantada na Rússia não daria certo no Brasil, pois a taxação maior das bebidas poderia gerar um consumo exacerbado de produtos ilegais — uma vez que o dependente não consegue ficar sem beber.

No Brasil, dados da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas) revelam que 2,3% dos brasileiros entre 12 e 65 anos sofrem de dependência alcoólica. Segundo Leal, a queda no número de alcoólatras no país só aparecerá depois da expansão de campanhas de divulgação dos malefícios causados pelo excesso de bebidas além da ampliação de investimentos no tratamento dos dependentes. “Hoje, quem desenvolve o alcoolismo fica nas mãos de clínicas particulares muito caras ou comunidades sem recursos”, afirma Leal.

O assessor técnico da Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Francisco Cordeiro explica que o alcoolismo é o principal problema de saúde pública no país. Para ele, assim como a Lei Seca resultou na redução no número de acidentes causados por decorrência do álcool, o aumento de impostos poderia contribuir para a redução do número de dependentes. “Este deve ser apenas um dos esforços para combater o problema — que exige medidas integradas de diversos setores da sociedade”, ressalta.

Em contrapartida, Ana Cecília Marques, coordenadora do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, afirma que aumentar o imposto no setor de bebidas alcoólicas seria a política preventiva mais eficaz que o país implantaria. “Quanto mais se restringe o uso, mais pessoas abandonam o consumo. Um exemplo é a lei antifumo. Com a bebida não seria diferente. Se beber ficar mais caro, a procura cairá e haverá mais buscas por tratamento”, afirma.

Para a especialista, além dos dependentes, a lei traria benefícios para os jovens que estão começando a beber e para os que, um dia, deixaram o vício. Tributos Segundo o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), o governo recolhe 54,8% de impostos sobre o valor de cada unidade de cerveja vendida. Em relação ao whisky, a porcentagem chega a 61,22%. Para o presidente Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, copiar medidas implantadas em outros países requer cautela. Segundo ele, a Rússia tem um governo centralizador e conseguirá administrar o consumo de bebidas no país. “Uma lei como essa no Brasil ampliaria a informalidade. Aquilo que parece remédio ideal pode trazer efeitos colaterais ainda piores”, conclui.

De acordo com as assessorias de imprensa do Senado e da Câmara Federal, já há projetos de lei que visam determinar que as indústrias de bebidas alcoólicas paguem as despesas de recuperação dos dependentes.
Autor: Seção Brasil
OBID Fonte: BOL