Bebida alcoólica com antibiótico: pode?

(BR Press) – Juntamente com a internet, as próteses de silicone e o Viagra, os antibióticos provavelmente estão entre as maiores conquistas da ciência no século passado. Imagine como era o mundo antes de você poder ameaçar as crianças com uma sequência de uma benzetacil por semana por vários meses? A saída era apelar para palmatória e grãos de milho. Mas evoluímos.

Evoluímos tanto que hoje existem centenas de antibióticos. Quase um para cada tipo de bactéria. E todo mundo adora um antibiótico. Ir ao médico não é nada, se ele não prescrever aquele antibiótico potentíssimo (e caríssimo), que não deixa nem nascer grama onde respingar uma gota do seu xixi. Nem que seja para tratar de uma infecção na garganta que iria resolver por si só após uns 3 ou 4 dias. Nada disso: tratar infecção de garganta sem antibiótico não é moderno. E tome remédio.

O problema com os antibióticos não começa nem termina no período de festas de final de ano, mas certamente se acentua nessa época. Tanto é que (e não ria desta informação, pois ela é baseada em fatos reais que aconteceram de verdade), na última semana de dezembro, muitos pacientes pedem para NÃO tomar antibiótico. Por pior que seja o caso.

– Hum, doutor…

– Hum mesmo, é uma tremenda erisipela essa aí que você tem no pé.

– E vai ter que tomar antibiótico?

– Sem dúvida alguma.

– Mas veja se o senhor entende meu lado. É que vem chegando o Natal e o fim de ano e eu queria mesmo tomar uns goles… Com antibiótico não pode, né? Será que não dá pra esperar uns dias, doutor?

– Olha, podemos mandar uma carta para as bactérias na sua perna e tentar um prazo, o que você acha?

Afinal, como ocorre a interação entre bebidas alcoólicas e remédios?

Ao ser ingerido, todo antibiótico deve viajar pela corrente sanguínea até o seu local de ação. Após este trajeto e com o passar do tempo, o efeito da droga diminui na medida em que ela vai sendo metabolizada por enzimas e eliminada do organismo.

De modo semelhante, o álcool também é transportado pela corrente sanguínea, agindo sobre o cérebro e causando intoxicação, até ser finalmente metabolizado e eliminado do corpo – uma tarefa que cabe especialmente ao fígado.

O álcool pode influenciar a eficácia de um remédio ao alterar sua disponibilidade. As interações mais típicas incluem:

Primeiro, uma dose aguda de álcool pode inibir o processamento do antimicrobiano, competindo pelas mesmas enzimas metabolizantes. Esta interação prolonga e intensifica e disponibilidade da droga, aumentando o risco de efeitos colaterais.

Segundo, a ingestão crônica ou prolongada de álcool pode aumentar a atividade enzimática, diminuindo a disponibilidade e os efeitos do medicamento. Uma vez ativadas, estas enzimas podem permanecer em ação mesmo durante a abstinência de álcool, afetando o metabolismo de certos remédios por várias semanas.

Ao parar de beber, uma pessoa que possui o hábito de consumir bebidas alcoólicas de modo intenso e crônico pode necessitar de doses maiores de medicamentos para obter os mesmos efeitos terapêuticos observados em pessoas que não bebem.

As enzimas ativadas pelo consumo crônico de álcool transformam alguns medicamentos em substâncias químicas tóxicas que podem danificar o fígado e outros órgãos.

O álcool pode intensificar o efeito de sedativos e narcóticos sobre o cérebro, alterando o potencial de intoxicação desses remédios.

O álcool pode exercer uma carga extra de trabalho sobre o fígado e o sistema imunológico, além de prejudicar sua capacidade de julgamento, liberando tendências agressivas e reduzindo os níveis de energia do organismo.

Devido ao risco de reações potencialmente fatais, algumas classes de antibióticos devem realmente ser evitadas quando se está ingerindo bebidas alcoólicas, tais como Metronidazol, Tinidazol, Furazolidona, Griseofulvina, Antimaláricos (Quinacrina) e Sulfametoxazol.

Nos demais casos, em respeito ao livre arbítrio e à manutenção das centenas de empregos diretos e indiretos gerados pelos serviços funerários, ofereço as informações acima e permito que o paciente faça sua escolha.

A maioria deles termina não arriscando. Afinal, fim de ano tem todo ano. Saúde, meu amigo, minha amiga, nem todo ano tem.
Por Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press
(*) Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante, autor de Vida e Saúde da Criança e Crianças em Forma: Saúde na Balança (www.editoranatureza.com.br). Fale com ele pelo e-mail aloiola@brpress.net ou pelo Blog do Leitor.
Fonte: Yahoo Brasil/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)