Entrevista com Paulo de Argollo Mendes – Ações de Combate ao Alcoolismo

Formado em 1974 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista e Gastroenterologia e Medicina Interna, pós-graduado em Gestão Empresarial pela Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo (USP). Paulo Argollo Mendes é o atual presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul e da Federação Nacional dos Médicos. Na entidade gaucha, desenvolve ações de combate ao alcoolismo. E é esse o assunto da entrevista para o Boletim Eletrônico da Abead. Confira!

Como o Simers atua no combate ao alcoolismo?
O Sindicato abriu diversas frentes de atuação, que incluem denúncia dos males do uso de bebidas alcoólicas e seu impacto para a sociedade (saúde, segurança, trânsito, crianças..), cobrança de garantia de estrutura de assistência em saúde junto a gestores públicos, proposição de legislação para tornar mais restrito o acesso a bebidas e busca de parcerias com organismos da sociedade para impulsionar o debate sobre a gravidade do problema e necessidade de adoção de medidas urgentes. Alcoolismo não é mais tema só de saúde e precisa ser tratado com esta dimensão dentro dos responsáveis pelas políticas públicas.

Por que o sindicato escolheu esse tema para campanhas e ações?
Pelo impacto que tem em todas as áreas. E pela impossibilidade de custearmos a imensa conta em saúde, em perdas de vidas, de trabalhadores e sofrimento de famílias, devido às mortes e demanda em tratamentos. Um cálculo estimativo indica que os impostos pagos pela indústria de bebidas respondem por menos de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Enquanto isso, as despesas para tratamento, perdas em acidentes e faltas em trabalho, para citar apenas três áreas, consomem 6% do PIB. Alguém está pagando esta conta e não é a Ambev.

De que forma é definida a abordagem utilizada nas campanhas?
Os médicos sempre vão observar primeiramente a saúde, mas hoje sabemos que os danos que ocorrem nas ruas, nas famílias e no trabalho vão chegar ao consultório, aos hospitais. Buscamos mostrar a preocupação da categoria com os danos, fazendo alertas, cobrando posição da área pública, mobilizando atitude e debates.

Como é realizado o projeto especial “Ação Álcool”?
Hoje envolve todas estas inserções citadas: realizamos fóruns internacionais para discutir políticas públicas, iniciativas que chegam às ruas (como divulgação de alertas contra venda a menores de 18 anos), vamos ao Litoral mostrar os riscos para o trânsito, divulgamos materiais gráficos explicando os males e como a sociedade deve agir, apresentamos propostas de ação pública para governadora, para prefeitos e para deputados estaduais e vereadores, além do Judiciário e Ministério Público. Nossos canais de comunicação, que incluem veiculações pagas nas principais emissoras de rádio, também disseminam a mensagem de alerta e necessidade de ação. Participamos ativamente de acordo, como o mais recente, entre Ministério Público, escolas privadas, órgãos de fiscalização e promotores de eventos em Porto Alegre que proíbe bebidas em festas adolescentes inclusive para adultos. O Simers também apoiou a lei que baniu álcool nos jogos de futebol do Estado e ajudou na elaboração da lei federal que impõe alcoolemia zero nas estradas. O abaixo-assinado contra propaganda em meios de comunicação teve mobilização da entidade.

Existem ações específicas sobre o consumo de álcool e drogas entre os médicos?
Temos acompanhado a existência do problema e prestamos todo apoio, por meio de acesso a assistência em saúde, para que os profissionais e familiares tenham suporte com rapidez. Mas sabemos que a incidência pode estar relacionada com as condições de trabalho, cada vez mais precárias, no sistema público, e acúmulo de diversos empregos, para assegurar melhor remuneração.

Essas ações se relacionam com as iniciativas de outras entidades médicas e da área de saúde?
Temos sempre buscado o intercâmbio de ações, principalmente com entidades da área médica. Uma delas envolve maior proximidade com a Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, devido a carências na área de tratamento. Temos interface com instituições ligadas a hospitais, com áreas de estudo sobre álcool e drogas, e oriundas de profissionais da saúde, como a própria Abead.

O RS é um dos estados que mais sofre com a chamada “epidemia do crack”. Em sua opinião, quais medidas devem ser adotadas pelo poder público para melhorar a situação atual?
É urgente ampliar a estrutura hospitalar e de tratamento a longo prazo dos dependentes químicos. O Rio Grande do Sul foi o precursor da reforma psiquiátrica, que implicou em redução estrondosa de leitos psiquiátricos nos últimos 17 anos. No Estado, foram fechados mais de 35% das vagas no SUS. Somente em Porto Alegre, seis em cada dez leitos que existiam em 1992 (um ano antes da vigência da lei) foram fechados. O governo estadual criou incentivos para abrir leitos para crack em hospitais gerais. Paga mais pelas diárias. Mas o que vemos é número insuficiente e serviços sem psiquiatras, sem proteção adequada a pacientes e sem garantia de complementação após internação. Na Capital, a prefeitura gasta milhões de reais por ano comprando vagas em clínicas privadas para tratar crianças e adolescentes. A saída é abrir mais instituições especializadas e melhorar e ampliar vagas em hospitais psiquiátricos. Se o problema já é grave hoje, vai piorar. Estamos alertando para isso há mais de quatro anos.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)