Dependentes desamparados

Se a ausência do Estado nos municípios ao redor do Distrito Federal faz com que a polícia enfrente dificuldades no combate ao tráfico de drogas, a situação dos viciados se revela ainda mais complicada. Falta de investimento, carência de infraestrutura e desatenção dos órgãos públicos fazem com que não existam unidades públicas especializadas em tratamento de dependentes químicos na região — os Centros de Assistência Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas (CAPSad). Nem mesmo há projeto para a instalação das estruturas, segundo a Secretaria de Saúde de Goiás.

As falhas e o descaso públicos levam ao desespero e à angústia famílias assoladas pelo flagelo da droga. Tal sofrimento alcançou uma mãe de Santo Antônio do Descoberto (GO). Sem recursos para internar o filho de 13 anos em uma clínica especializada, ela o acorrentou à janela da própria casa. O adolescente viciou-se em crack há três meses por incentivo dos amigos. Todos da mesma idade. “Eles continuam se destruindo. O crack está empesteando Santo Antônio. Daqui a uns dias, aqui será igual a Brasília”, comparou o menino, agora sob a guarda do Conselho Tutelar (1)local.

A comparação entre os dois lugares veio da época em que ele fugiu de casa para a Rodoviária do Plano Piloto. Foi onde o menino conheceu o mundo do crime: furtou celulares em vitrines de lojas e assaltou com ameaça. O lucro com o repasse dos objetos virava pedra, consumida logo em seguida. O adolescente passou quatro dias no terminal rodoviário. Voltou para Santo Antônio do Descoberto, onde continuou com a mesma rotina. O vaivém obrigou a mãe a tomar uma medida extrema na tentativa de segurá-lo dentro de casa. Usou correntes de metal para prendê-lo à janela.

O garoto conversou com o Correio acomodado em uma das camas do abrigo do Conselho Tutelar. Além de contar os detalhes da vida depois do crack, revelou cicatrizes nos punhos. Explicou que, em uma crise de abstinência, tentou se matar. Está agora há três dias longe do vício. Garantiu que vai se afastar do consumo da substância que o levou ao crime. “Coloquei na cabeça que vou parar”, disse. O Conselho Tutelar estuda a possibilidade de encaminhar o adolescente a unidades públicas de tratamento para dependentes químicos em Goiânia (GO), já que não há nada parecido na região.

Reabilitação
Saulo Viana Melo, 26 anos, experimentou tudo de ruim que o crack pode provocar na vida de um usuário. Em seis anos, perdeu emprego, mulher e filho. Sem dinheiro, roubou para sustentar o vício. Acabou preso em 2002 em Pouso Alegre (MG), onde passou 30 dias na prisão. “Eu me sentia mais feliz lá dentro, onde não me drogava”, contou. A liberdade durou seis anos. Até ser apanhado em mais um assalto. Da última vez, ficou 73 dias na cadeia de Formosa (GO). “Eu pesava 54kg na época. Estou agora com 82kg”, comemorou o hoje monitor do Centro de Reintegração Deus Proverá (CRDP), em Planaltina.

Saulo conheceu o crack em São Paulo. Viu amigos morrerem. A maioria, por dívida e overdose. Há um ano e meio sem usar o entorpecente, discorda dos especialistas que não acreditam na recuperação de viciados. “Eu já apostei com um amigo quem usava mais. Tínhamos comprado 600 pedras. Ele passou mal e morreu ao fumar 22. Hoje, eu passo perto de gente usando e dou conselho para parar.” Ele retomou a vida em família e se formou em nove cursos profissionalizantes. Também passou no vestibular para direito. “Agora, ninguém me segura”, avisou.

O futuro advogado convive com 85 dependentes de álcool e outros entorpecentes em uma propriedade doada para a instituição de Planaltina. O hóspede mais novo se chama Vincent Vinícius Alves Machado, 32, ex-ajudante de manutenção em refrigeradores. Além da família, Vincent perdeu a casa depois de entrar para a rotina imposta pelo uso das pedras. “Minha casa, em Sobradinho, valia uns R$ 150 mil. Eu a vendi por R$ 95 mil. Na época (1999), minha mulher se separou de mim e levou nosso filho”, relembrou.

Vincent está há três meses longe do crack. A abstinência, às vezes, o deixa nervoso e inseguro. A ponto de querer largar tudo e voltar para as ruas. “Cada dia que passo sem usar droga é um desafio cumprido”, alegra-se. “Tenho apenas os colegas do abrigo na minha vida. Minha família nunca veio me visitar aqui. Eles não acreditam mais em mim”, acrescentou. Mesmo assim, o ex-ajudante de manutenção não deixa de ter planos e sonhos para um dia recuperar tudo o que perdeu. A instituição filantrópica é administrada pelo pastor evangélico Francisco Ramalho Medeiros.

Vergonha
Sem alternativas públicas no Entorno, dependentes químicos também procuram ajuda em instituições particulares. Parte delas tem uma ordem religiosa por trás da assistência. É o caso da Força Para Vencer, um centro evangélico de reabilitação localizado em área rural de Águas Lindas (GO). Há 32 homens, todos com histórico de vício em crack. Pagam mensalidade de até R$ 300 por atendimento mínimo de 180 dias. Dividem-se entre moradores de Goiás e do DF. Entre eles, está o jovem Paulo*, de 25 anos, internado há quase dois meses.

O morador de Corumbá de Goiás, município distante 128km do Plano Piloto, usou a droga desde os 16 anos. Segundo ele, buscava o crack em Goiânia e Anápolis. Estudava ou trabalhava durante a semana e consumia as pedras aos fins de semana. Na época, tinha namorada e ganhava dinheiro suficiente para comprar roupas de marca e se sustentar. “Chegou uma hora em que perdi o controle. Passei a viver para o crack. Vendi tudo o que tinha e até furtei várias coisas na casa onde morava com a minha avó, admitiu o rapaz.

Paulo chegou a viver na rua como mendigo. Está na segunda internação. “Estou há um mês e sete dias limpo. Sinto vergonha de tudo que fiz. Depois que se conhece o crack, é só negatividade. Considero essa (a segunda internação) a minha última chance na vida”, revelou. O jovem pretende retomar os estudos em Águas Lindas assim que deixar a Força Para Viver. Além de quartos, o centro de reabilitação conta com área verde, campo de futebol, criação de animais, horta e oficinas. Os pacientes se mantêm ocupados ao longo do dia.

1 – Surpresa
Os conselheiros tutelares de Santo Antônio do Descoberto se surpreenderam com casos de crianças que experimentaram crack na cidade. Um deles tinha 8 anos. O Conselho Tutelar incentiva e orienta os pais a ter mais atenção com os filhos e mantê-los na escola.
Fonte:Correio Braziliense/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)