Crack se aproxima de álcool no ranking da dependência

Vinte e nove anos de idade, nove internações e uma vida marcada pela violência, mortes e destruição familiar. Esses são alguns dos reflexos do crack na vida de X., um dos internos do Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta) do Hospital da Polícia Militar (HPM), em Vitória. Filho de advogado, o rapaz perdeu os pais e a mulher por culpa das drogas. “Comecei com 13 anos. Perdi minha juventude, mas estou disposto a recuperá-la”, diz.

A história de X. é apenas um dos vários exemplos do estrago que o crack pode causar na vida de uma pessoa. Tal fato vem se tornando tão comum que hoje os principais centros de atendimento a dependentes químicos do Estado já registram uma diferença cada vez menor entre o número de usuários de álcool e de crack.

No HPM, localizado em Bento Ferreira, os dados são surpreendentes: em 1998, a distância relativa ao número de atendimentos destinados a usuários de álcool – que segue na liderança no ranking da dependência – e crack era de 34 pontos percentuais. Em 2008, era de apenas 6 pontos.

Para o psiquiatra Fernando Furieri, a escravização causada pelo crack e o surgimento de medicamentos eficientes no tratamento do alcoolismo podem ser a razão dessa mudança. Apesar de o programa de reabilitação do HPM ter surgido para atender apenas os policiais, em 2009 dos 164 dependentes internados só dez eram militares.

Medicamentos
Em outro local de tratamento para dependentes químicos, o Centro de Prevenção e Tratamento a Toxicômano (CPTT) de Vitória, na Ilha de Santa Maria, uma pesquisa mostra que 43,21% dos medicamentos são destinados a usuários de crack na faixa etária entre 18 e 24 anos; e 12,38%, para os de álcool, na mesma faixa de idade.

O levantamento foi realizado pelo responsável pela coordenação da Farmácia do CPTT, o farmacêutico Gustavo Amorim. “Ao chegar à farmácia, o paciente está selando o tratamento”, explica. No setor de acolhimento do mesmo centro, o crack superou as outras drogas em outubro do ano passado. (Com colaboração de Geraldo Nascimento)

Tratamento contra a droga é mais difícil
“É muito mais difícil se livrar do crack do que de qualquer droga.” A afirmação é do psiquiatra Fernando Furieri. Segundo ele, a compulsividade do dependente faz o tratamento ter menos de 30% de chance de sucesso. “O usuário se torna um escravo, o que também acaba estimulando a violência e o tráfico”.

O médico explica que a sensação de prazer causada crack é 500% maior que a do sexo, da comida e do exercício físico. “Com isso, a dependência é inevitável e praticamente irreversível”, diz.

O crack causa reações físicas como convulsão, elevação da pressão arterial, arritmias cardíacas, além de fibrose pulmonar e reflexos no sistema nervoso, como psicose, delírio e alucinação. Ele pode levar a pessoa à morte. A partir de uma ou duas experiências, é possível tornar-se dependente. A droga possui a capacidade de chegar muito mais rápido ao cérebro – de 10 a 15 segundos após fumada -, mas tem efeito efêmero, de cinco minutos.

Fernando Furieri explica que a única solução médica hoje é um procedimento que introduz eletrodos no cérebro da pessoa para acalmar a fissura e a ansiedade pelo uso da droga. “O custo do procedimento é alto, mas há debates para que ele seja oferecido pela rede pública”, diz.

Recaídas abaixo da média no HPM
Entre os 164 dependentes químicos que se internaram no Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta) do Hospital da Polícia Militar (HPM) em 2009, 59% afirmou ter tido recaída. De acordo com o coordenador do Presta, tenente Rubens José Loureiro, o resultado é positivo. “A média estipulada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que 70% voltem às drogas”, afirma.

O programa é aberto para toda a população. Aos interessados basta agendar uma avaliação com o grupo de acolhimento. Depois, é feita uma triagem que vai definir ou não a internação. O Presta também oferece atendimento a familiares, com psicólogos e assistentes sociais.

No total, são 18 leitos – em abril serão 25. O interno fica, em média, de 35 a 45 dias. Depois ele segue para um pós-tratamento, que chega a durar dois anos. Nesse período, frequenta o HPM uma vez por semana. São 15 profissionais, entre psicólogos e assistentes sociais à disposição dessas pessoas. O únicos pré-requisitos são: ter mais que 18 anos e interesse no tratamento.

No Centro de Prevenção e Tratamento a Toxicômano de Vitória, o tratamento pode ser feito em três períodos, que variam de idas diárias a três visitas por mês. As internações duram 15 dias e acontecem no Pronto-Socorro Psiquiátrico do Hospital São Lucas.

Centro de tratamento vai funcionar durante 24 horas
Ainda neste ano, o Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas (Caps-AD) – também conhecido como Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos (CPTT) de Vitória – passará a funcionar durante 24 horas para atender a pacientes da unidade. De acordo com a coordenadora da Saúde Mental em Vitória, Andréa Campos Romagnoli, a ampliação permitirá acolher os usuários em crise durante a noite.

“O centro passará por uma reforma e ganhará cinco leitos. Não atenderá a casos de emergência, mas apenas aos pacientes já em tratamento”, explica.

Nos próximos dois anos, a prefeitura pretende transformar o Centro de Atenção Psicossocial para pessoas com transtornos mentais graves, o Caps II, em Caps III. Também deve ser construída outro Caps III e um serviço específico para atendimento de crianças e adolescentes usuários de álcool e drogas. (Priscilla Thompson)

Onde buscar ajuda
Presta
Triagem: O agendamento
deve ser feito às sempre segundas-feiras
Local: Avenida Joubert Barros, 555, Bento Ferreira, Vitória
Telefone: 3137-1765

CPTT
Acolhimento: É feito diariamente, exceto nas manhãs de terça-feira
Local: Rua Álvaro Sarlo, s/n, Ilha de Santa Maria, Vitória
Tels.: 3132-5104 e 3132-5105

De olho nos números
Confira os dados de atendimento no HPM e no CPTT, ambos em Vitória

Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta) do HPM

Adesão
Em 2009, de todos os dependentes químicos internados no HPM, 79% aderiram ao tratamento

Atendimentos
Em 2009: 4.027, entre eles 164 internações
Em 2008: 2.763, entre eles 157 internações

Tipo de droga
Em 1998:
Álcool: 40%
Cocaína: 19%
Maconha: 18%
Crack: 6%
Em 2008
Álcool: 28%
Crack: 22%
Maconha: 21%
Cocaína: 21%

Recaída
Dos atendidos em 2009, 59% confessaram ter tido recaída

Avaliações do Pós-tratamento (internações) em 2009
Já tiveram recaída?
59% sim
41% não

Está tendo recaída
95% não
5% sim

Considera-se reabilitado?
69% sim
31% não

Dos 164 internados em 2009, 35 disseram ter tido recaída, 22 em menos de 6 meses; 7 entre 7 meses em um ano; 1 entre 1 e 2 anos e 5 em mais de 2 anos

Internações
Em 2008: Foram 96% de internações de civis e 4% de militares
Em 2009: 94% das internações foram de civis

Dados do Centro de Prevenção e Tratamento a Toxicômano (CPTT)

Distribuição de medicamentos
Para pessoas com idade entre 18 a 24 anos

Para usuários de crack: 43,21%
De cocaína aspirada: 23,41%
De tabaco: 17,60%
De álcool: 12,38%
De maconha: 8,40%

De 25 a 34 anos
Para usuários de crack: 30,95%
De maconha: 22,68%
De álcool: 20,67%
De cocaína aspirada: 15,37%
De tabaco: 8,77%
Múltiplas drogas: 1,56%

Fontes: CPTT e HPM

“Com o crack, perdi o controle de tudo”
O espanto do filho, de 4 anos, ao ver o cofrinho quebrado pelo pai num momento de crise em busca de dinheiro para comprar crack foi o que levou um motorista de caminhão de 28 anos a decidir pelo tratamento da dependência química. A mudança de atitude veio após 17 anos usando maconha, cocaína e o crack. “Comecei a usar maconha aos 11 anos, por influência de um tio. Daí, passei a cocaína e ao crack, que foi quando perdi o controle de tudo e reconheci que era um doente”, disse o rapaz. Filho de uma advogada e de um empresário, o jovem está prestes a sair da internação no Presta, no HPM, e confia no apoio que sempre recebeu da família para continuar em recuperação.
Fonte:A Gazeta/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)