Álcool na gravidez pode afetar o DNA do feto

Mulheres que bebem álcool em excesso na gestação podem afetar o DNA do feto, alterando a forma como os genes se expressam. É o que revela um estudo assinado por pesquisadores australianos, publicado na revista “PLoS Genetics”.

A ingestão de álcool pela mãe durante a gravidez atinge a corrente sanguínea, passando, em seguida, para o feto através das trocas de nutrientes na placenta. Os danos resultantes desse abuso são chamados de Síndrome do Alcoolismo Fetal (SAF).

Os cientistas já sabem que a SAF pode causar danos físicos e comportamentais. Mas pouco se sabia até agora sobre os mecanismos moleculares que atuam por trás dessa condição.

Estudos anteriores já haviam revelado que uma série de fatores durante a gravidez pode causar modificações epigenéticas — nas quais o ambiente interfere e controla a atividade genética — no DNA do feto. Tais mudanças não afetam o código genético, mas alteram a forma como os genes se expressam.

Os pesquisadores do Instituto de Pesquisas Médicas de Queensland, na Austrália, analisaram os camundongos com genes que definem as cores dos pelos, entre marrom e amarelo, e que podem ser modificados por mudanças epigenéticas.

— Esse é um bom modelo porque você pode dizer se o ambiente afetou a expressão dos genes apenas olhando para o pelo dos animais — diz a pesquisadora Suyinn Chon, que conduziu o estudo.

Dados podem levar a tratamento precoce

Fêmeas com duas cópias do gene para o pelo amarelo foram cruzadas com machos com duas cópias do gene para o pelo marrom. Essa combinação resultaria numa previsível proporção de animais com pelos marrons, amarelos e algumas variações, a não ser que fatores epigenéticos afetassem a expressão dos genes.

Às fêmeas grávidas, os pesquisadores deram álcool em vez de água, durante a primeira metade da gravidez. O nível de álcool nas cobaias ficou em torno de 0,12% — nos humanos, o equivalente a cerca de 1,5 vez o permitido para a direção de veículos nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Os pesquisadores analisaram os recém-nascidos e contaram duas vezes mais animais com pelos marrom do que o esperado.

— O álcool causou modificações epigenéticas nos fetos, controlando a forma como seus genes se expressavam — garante a pesquisadora.

Os recém-nascidos, expostos ao álcool, também apresentaram os mesmos sintomas que crianças atingidas pela SAF, como pouco peso e cabeça menos desenvolvida.

— Se soubermos quais genes são afetados pelo álcool, poderemos testar recém-nascidos para SAF e oferecer a eles tratamento desde cedo — diz ela.
Fonte:O Globo-Rio de Janeiro/RJ-CIÊNCIA-17/01/2010/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)