Cresce participação de menores no tráfico

Em 2006, o percentual dos menores infratores envolvidos com a venda de drogas era de 25,4% dos internos em Ribeirão Preto

Números da Fundação Casa (ex-Febem) sobre a população de menores infratores abrigados nas unidades existentes em Ribeirão revelam que a participação dos adolescentes no tráfico de drogas tem aumentado a cada ano, a ponto de se transformar no principal motivo das internações pelo segundo ano consecutivo.

Os dados referentes a 2009 mostram que, dos 325 adolescentes que deram entrada para cumprir medida socioeducativa de internação, a mais rígida, nas duas unidades da fundação em Ribeirão, 39,2% foram internados por envolvimento com o tráfico. A venda de droga lidera a lista entre os atos infracionais cometidos pelos menores no ano passado.

Os números de anos anteriores revelam uma verdadeira escalada na participação dos jovens no tráfico. Três anos antes, em 2006, o percentual de menores internados por causa do tráfico era de 25,4% -passou para 29,7%, em 2007, e chegou a 38%, em 2008.
No caso específico do ano passado, o segundo lugar no ranking dos atos infracionais mais cometidos pelos adolescentes foi o roubo qualificado, com 30,1% dos casos. Porém, segundo o diretor da unidade Rio Pardo da Fundação Casa em Ribeirão, João Paulo Meneia Arroyo Junior, quase todas as demais infrações cometidas pelos menores estão vinculadas ao tráfico de drogas.

“O tráfico estimula o roubo, homicídio, lesão corporal, influencia tudo. O jovem no tráfico tem um giro [de dinheiro] muito rápido, e a vontade de adquirir alguns bens faz com que ele vá para esse meio mais fácil, em vez de trabalhar.”

A unidade dirigida por Arroyo Junior tem capacidade para 108 menores, e dos 221 que passaram por ela em 2009, 45,7% foram liberados. Na outra unidade da fundação existente em Ribeirão, com capacidade para 120 adolescentes, 104 deram entrada nos 12 meses de 2009 e 43,3% retornaram para a convivência familiar.

Apesar do índice de liberação, a reincidência é um problema recorrente, principalmente entre os que se envolvem com o tráfico. Essa é a situação de Henrique (nome fictício), 17, que entrou na unidade Rio Pardo no ano passado. É a segunda vez que ele é internado, sendo que nas duas ocasiões foi levado para cumprimento da medida socioeducativa por causa do tráfico (leia texto nesta página).

O diretor da unidade Rio Pardo disse que os adolescentes envolvidos com o tráfico, quando deixam a internação, voltam a ser assediados por criminosos. “Quando eles saem, o trabalho todo pode ir por água abaixo, por isso temos que dar uma boa estrutura aqui dentro, para que eles resistam.”

O pesquisador Aristides Marchetti, do Observatório de Violência da USP, disse que o crime, principalmente o tráfico, acaba se tornando uma “fascinação” para muitos jovens, o que torna difícil afastá-los.
“Carros, mulheres, é um sonho meio hollywoodiano e eles se perdem nisso. Nós vemos isso como uma coisa totalmente antissocial, mas não é assim que eles enxergam.”

Outro problema, segundo Marchetti, é que em muitos casos a passagem dos jovens pelas unidades de internação, ou por prisões, quando já adultos, acaba dando “status” na hierarquia do crime.

“Ele sai, o sistema pega de novo, mas nessas idas e vindas ele cresce em importância. Por isso, a reincidência é muito difícil de combater”, disse.
Fonte:Folha de S Paulo/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)