Dependência do crack afasta famílias

Pais perdem guarda dos filhos por causa do vício

Dependência do crack retira das gestantes guarda temporária dos bebês. Crianças são encaminhadas para parentes ou casas de acolhimento.

A devastação causada pelo crack obrigou o Ministério da Saúde a lançar, em dezembro, um programa de combate à chaga social que mais cresce no Brasil. Além de encurtar a vida de jovens, o vício na pedra da morte separa pais drogados de seus filhos, desde a maternidade.

Nos hospitais do Grupo Hospitalar Conceição, na Capital, o número de casos de bebês encaminhados em 2009 pela Justiça para parentes de gestantes drogadas ou para casas de acolhimento da prefeitura dobrou, em relação ao mesmo período de 2008. Conselhos Tutelares apontaram crescimento de 30% nos registros de crianças abandonadas, pelo mesmo motivo, caracterizando negligência ou abandono de incapaz.

Para a casa de parentes

O coordenador geral dos conselhos em Porto Alegre, Antônio Américo Machado, revela que 95% das pessoas sofrem ações de destituição do poder familiar por causa do consumo de drogas, especialmente o crack. Para comprar a pedra, eles fazem de tudo, inclusive deixar as crianças na casa de parentes ou pelas ruas.

O Conselho Tutelar comunica à Justiça, e os menores são encaminhados para familiares, por ação de regularização de guarda, ou para casas de acolhimento da prefeitura. Quando a mãe não quer ou não tem condições de criar e admite isto por escrito, a criança é encaminhada para adoção.

Mãe deu a volta por cima

M., 33 anos, fumou todas as pedras que encontrou no caminho de viciada. Durante um ano, abraçou o crack. Pesava 39kg. Era só pele e osso, uma magreza boa para engordar as piores estatísticas. Para sustentar o vício, vendeu roupas, lençóis, panelas. Não morreu, mas esteve perto.

– Tava na última, não me alimentava mais. Ficava só em casa fumando – admitiu abraçada aos filhos, sentados a seu lado no sofá da casinha de madeira construída numa área irregular em bairro da Zona Norte da Capital.

Natal deste ano será em casa

Um dia, sua vida, que já estava péssima, piorou. Perdeu a guarda temporária de quatro filhos. Depois, o quinto também partiu para a Casa de Passagem.

O efeito da separação foi mais forte que o da droga. No Natal passado, a festa – se é que poderia haver alguma – foi no abrigo. Tirou fotos, chorou.

Mas, em vez de chafurdar no cachimbo, M. optou pela vida. Com o apoio de um amigo da família, iniciou tratamento na rede pública de saúde. Limpou o organismo, rejuvenesceu e engordou 20kg. Há três meses, começou a colher frutos do esforço à base de medicação e acompanhamento psicológico.

– Senti que ela ia morrer e decidi ajudar – afirmou o amigo, peça fundamental nesta virada de jogo.

Os números

Grupo Hospitalar Conceição – Hospital Conceição

45 casos de gestantes viciadas que perderam a guarda temporária dos filhos.

39 foram para casa de familiares e seis para casas de acolhimento.

Grupo Hospitalar Conceição – Hospital da Criança Conceição

24 casos de perda de guarda

Hospital Fêmina

22 casos: 19 bebês ficaram com parentes e três ingressaram em casas de acolhimento.

Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas

46 casos: 32 saíram do hospital com parentes, seis com os pais, seis foram para casas de acolhimento e dois morreram.
Fonte:Diário Gaúcho – Eduardo Rodrigues/UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas