Droga leva classe média ao crime

Em São Paulo, 31% dos adolescentes internados na Fundação Casa (antiga Febem) são de classe média ou alta. Embora em Belo Horizonte não exista um dado socioeconômico referente aos menores do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA-BH), pesquisadores e juízes de Minas afirmam que o cenário da criminalidade entre os internos não é exclusividade da camada mais pobre da população.

O caminho desses adolescentes até os atos infracionais está, na maior parte das vezes, ligado ao aumento do consumo de drogas entre menores de classe média, principalmente, do crack – entorpecente que causa uma dependência química muito rápida.

Segundo o pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (Crisp) Robson Sávio Reis Souza, esses jovens estão cada dia mais dependentes das drogas e, por isso, mais expostos à ilegalidade. Ele afirma que as classes média e alta são as maiores consumidoras de drogas no Brasil.

“Os jovens não conseguem mais se esconder do vício. Além disso, há dez anos, essas classes altas eram muito acobertadas pela Justiça. Hoje, a situação mudou. A imprensa e a polícia também estão mais independentes e, quando sabem de um caso envolvendo alguém importante, não escondem mais. A famosa ‘carteirada’ perdeu espaço”, analisa.

Segundo a juíza da Vara Infracional da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, Valéria da Silva Rodrigues, as ações de apreensão e combate ao tráfico de drogas se concentram na periferia, mas não são só nessas áreas que o comércio ilegal e o consumo de drogas estão presentes. Ela explica que, geralmente, um adolescente do grupo de classe média ou alta é escolhido para subir o morro e repassar a droga aos demais.

“Sempre tem um coleguinha que vai até a favela e compra a droga. Os bairros nobres também estão comprometidos com o problema do vício e do tráfico. Shoppings da região Sul são utilizados para o consumo de droga”, revela. Ao contrário de Souza, ela acredita que o poder econômico dos usuários ainda influencia sobre a fiscalização de irregularidades nessas áreas.

No último dia 6, uma dupla de jovens de classe média, de 19 e 15 anos, foi apreendida pela polícia acusados de assaltarem a casa da irmã do governador, Andrea Neves, no condomínio Retiro das Pedras, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Os jovens, um deles filho de um gerente de banco, foram pegos com alguns objetos furtados e cocaína.

Prevenção da criminalidade começa nas escolas

Reduzir a violência e prevenir o uso de drogas entre crianças e adolescentes são os dois grandes desafios do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd). O projeto coordenado pela Polícia Militar de Minas Gerais atende, todos os anos, 300 mil crianças da pré-escola ao ensino médio em 4.500 escolas mineiras.

Os alunos têm encontros semanais com os policiais, em que recebem informações sobre drogas. Para um dos coordenadores do projeto, capitão Údson Ferraz, o principal ingrediente do projeto é atuar em parceria com os pais e a comunidade, que também se encontram com os policiais.

“O nosso papel é prevenir que essas crianças entrem para a criminalidade. A decisão de usar ou não drogas é de cada um, o que queremos é conscientizá-los dos riscos e consequências dessa ação. Outro resultado importante que colhemos é o aumento da segurança nas escolas e a conquista de um ambiente mais propício ao ensino”, destaca.

Alerta

Pais devem ficar atentos aos filhos
Para a juíza Valéria Rodrigues, da Vara Infracional da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, a família desempenha um papel importante para evitar que o jovem entre para a criminalidade.

“O que acontece é um choque de gerações. Os pais dizem que ‘na minha época não era assim’ e não conseguem se comunicar com os filhos. Mas não veem que é preciso rever o modelo de educação dentro e fora de casa, sem abrir mão dos valores importantes”, diz.

O envolvimento dos jovens com o crime não estaria ligado somente à condição socioeconômica, mas sim, à situação psicossocial. “O crime e as drogas se apresentam como uma fuga. O adolescente que comete uma infração está sinalizando um problema. Um jovem normal não pratica crimes”, avalia.
Fonte:O Tempo/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)