Entrevista com Dra. Camila Guindalini – Genética e Alcoolismo

Dra. Camila Guindalini, Pesquisadora do Departamento de Psiquiatria e Psicobiologia, ambos da Universidade Federal de São Paulo.

1. Pesquisas têm evidenciado a associação entre fatores genéticos e os transtornos relacionados ao uso de álcool (abuso e dependência). É possível determinar se esses transtornos são derivados de fatores genéticos ou de outros fatores, tais como o ambiente familiar e/ou a influência de amigos? Como é possível diferenciar essas influências?

Os transtornos psiquiátricos em geral são classificados como transtornos complexos ou multifatoriais. Essa classificação deve-se ao fato de sua manifestação ser comprovadamente um resultado de uma complexa interação entre fatores genéticos e ambientais. Ambos precisam estar presentes para que o transtorno se manifeste. Aparentemente, estudos mostram que o uso de substâncias tenha uma influência maior dos fatores ambientais, como ambiente familiar e amigos, em contrapartida, a transição para o abuso e dependência têm uma influência maior de fatores genéticos. Isso explicaria porque após o mesmo nível de exposição, algumas pessoas se tornam dependentes, enquanto outras, não.

2. Como os avanços na pesquisa sobre genética e alcoolismo podem contribuir no desenvolvimento de intervenções precoces? Você acredita que esses métodos poderiam reduzir significativamente os transtornos relacionados ao uso do álcool?

Ao determinarmos quais são os fatores de risco genéticos que predispõem um indivíduo a se tornar dependente de álcool, seremos capazes de indentificar essa pessoa precocemente, e tomar medidas preventivas, associadas ao que chamamos de aconselhamento genético. Esse indivíduo pode ser melhor orientado, evitando assim prejuízos futuros. É o que chamamos de medicina preventiva. Além disso, fatores genéticos podem melhorar o diagnóstico e apontar novos alvos de ação de drogas, permitindo assim, o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.

3. Como a regulação/expressão de diversos genes pode influenciar os riscos de desenvolver transtornos relacionados ao uso do álcool?

O álcool como qualquer outra droga de abuso, se for utilizada regularmente,tende a promover sintomas conhecidos como tolerância – redução na intensidade da resposta e necessidade de consumir uma quantidade cada vez maior para se obter o efeito anteriormente alcançado. Por outro lado, a interrupção do uso de uma determinada substância, pode causar o que chamamos de síndrome de abstinência, caracterizada por sintomas físicos, como tremores, alterações cardiovasculares e alucinações; e/ou emocionais, como disforia (um estado de instabilidade de humor ou instabilidade afetiva) e anedonia (interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina). Ambos os fenômenos comportamentais de tolerância e sintomas de abstinência parecem ser derivados pelo menos em parte de adaptações biológicas/genéticas compensatórias que ocorrem durante o processo de abuso/dependência de drogas. Na tentativa de manter o equilíbrio, os sistemas cerebrais tendem a adaptar-se à presença constante da droga no organismo, diminuindo ou aumentando a concentração de determinadas substâncias, como neurotransmissores e seus receptores. A produção dessas substâncias é regulada pela expressão dos respectivos genes.

4. De acordo com seus estudos, há variações na região promotora do gene da álcool desidrogenase 4 (enzima responsável pela metabolização do álcool em nosso organismo) associadas a um maior risco para desenvolver a dependência alcoólica. Como isso proporcionaria uma predisposição para a dependência?

A maior parte do álcool ingerido por um indivíduo é metabolizado no fígado pela ação das enzimas álcool (ADH) e aldeídeo (ALDH) desidrogenases. A primeira converte o álcool em acetaldeído, uma substância tóxica para organismo. Por sua vez, a enzima aldeído desidrogenase (ALDH) converte o acetaldeído em acetato, dimunindo a concentração e os efeitos tóxicos do acetaldeído. Essas enzimas estão presentes em várias formas e são codificadas por diferentes genes. O gene ADH4 faz parte da família de enzimas álcool desidrogenase. Estudos têm demonstrado que variações genéticas individuais podem influenciar a taxa de conversão do álcool para acetaldeídeo e de acetaldeídeo para acetato, influenciando assim a velocidade com que o álcool será metabolizado e por conseqüência, a quantidade ingerida, a qual está diretamente relacionada com o aumento de risco em desenvolver abuso e dependência ao álcool.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool