Craques consumidos pelo crack

Caso do jogador Jobson revela que o crack chegou ao futebol profissional. A história do atacante lembra o drama vivido por dois irmãos caxienses que perderam a chance de profissionalização no esporte por causa das drogas. Porém, sempre há esperança, como o ressurgimento do time amador do Mundo Novo, desintegrado pela pedra, como o Pioneiro mostrou há um ano.

O crack derrubou o atacante Jobson, do Botafogo. O atleta profissional de 21 anos admitiu nesta semana não ter conseguido driblar a droga, e foi suspenso por dois anos. Quase banido do futebol, ele reacendeu a discussão sobre o envolvimento de jogadores com drogas. Caxias tem histórias parecidas, de drogas que derrotaram promissores atletas da várzea e de categorias de base. Mas o futebol da cidade também coleciona vitórias, como a do Mundo Novo, time do loteamento Mariani desintegrado pelo crack que está reativando seu departamento de futebol (leia ao lado).

O episódio com Jobson remete à história de dois irmãos que abreviaram a carreira devido às drogas. Os pais lembram de momentos felizes, quando saíam aos finais de semana para acompanhar os jogos dos filhos, então garotos das categorias de base do Caxias. Antes de abandonarem os gramados, o mais velho, hoje com 28 anos, era um dos artilheiros do time júnior. O outro rapaz, que está com 25 anos, era goleiro do juvenil.

O mais novo, de 1m80cm e 80 quilos, fazia defesas incríveis, recorda o antes orgulhoso pai. Incentivador, o homem assistia a todos os jogos. Porém, atraído pela maconha e cocaína, o filho deixou de treinar aos 15 anos. O mesmo aconteceu com o mais velho. Aos 17 anos, jogava em qualquer posição do meio para a frente. Sem muita altura para o futebol, 1m75min, tinha boa mobilidade e rapidez.

Gol contra – A alegria da família que já teve apartamento próprio de três quartos no bairro Rio Branco e hoje mora em um porão alugado no Medianeira se esvaiu. Faz 10 anos que o goleiro trocou os gramados pelas drogas. O rapaz conciliava o futebol com os estudos e, para aumentar o orgulho dos pais, chegou a concluir o ensino médio. Não era alto para ficar na goleira, mas tinha boa impulsão e se posicionava bem. Ganhou vários campeonatos desde a estreia no Caxias, aos oito anos. Segundo o rapaz, até proposta para jogar na base do Grêmio recebeu. Isso aconteceu após um torneio em Alegrete, o Efipan, lembra o ex-atleta, hoje jogado no sofá de casa, com o olhar distante e fumando.

O mais novo dos irmãos diz não ter usado crack na época que defendia o gol do time juvenil, mas admite que já consumia outras drogas:

– Tu até consegues treinar e jogar, mas teu rendimento vai caindo. Aí, descobriram que eu me drogava.

Ao ser demitido, o rapaz mergulhou mais fundo nas drogas, descobrindo o crack aos 20 anos. Nessa época, trabalhava em uma transportadora, como chapa. Até frequentou a Pastoral de Apoio ao Toxicômano Nova Aurora, fez tratamento de nove meses e abandonou as drogas, mas não por muito tempo.

Logo em seguida voltou a virar noites consumindo a pedra, mas ainda tinha forças para ir trabalhar pela manhã. Em novembro passado, foi demitido por justa causa após se ausentar do trabalho por 40 dias. Atualmente, vê nascer uma esperança: a namorada está grávida de seis meses. Acha que a criança lhe dará ânimo para abandonar o crack de vez e voltar a trabalhar.

Do futebol, restaram só lembranças. Não ficaram nem camisas, medalhas e troféus, tudo entregue aos traficantes, assim como os eletroeletrônicos da casa humilde dos pais.

Chances perdidas – O mais velho dos irmãos seguiu trajetória semelhante. Entrou na escolinha do Caxias aos sete anos, levado pelo pai, e ultrapassou todas as categorias até jogar como júnior.

– Fazíamos treinos com os profissionais, e até que me saía bem – diz.

Sem medo das chegadas firmes dos zagueiros, era um bom atacante. Porém, a combinação de álcool, cigarro e maconha e, mais tarde, cocaína, o afastou dos treinos. Quando jogava, era musculoso e chegou a pesar 78 quilos. Hoje é desatento, fuma muito, não consegue fixar o olhar em um ponto e pesa quase 20 quilos menos. É pai de uma garota de dois anos, que mora com a mãe.

– No começo, a droga até parece um incentivo, mas tu perdes a vontade de treinar, de jogar – admite.

O rapaz parou antes mesmo de passar por testes para o time profissional. Não havia como concorrer com outras dezenas de garotos saudáveis e mais responsáveis. Foi expulso pelas drogas. Admite nunca ter parado de usar cocaína e, há cerca de quatro anos, quando tinha 24 anos, iniciou no crack. Segundo ele, foi quando trabalhava como garçom na noite e teria encontrado facilidades para fumar a pedra.

Esperança mantida – A trajetória dos irmãos que ficam a maior parte do dia dentro de casa e com a porta chaveada por fora produziu cicatrizes profundas no rosto dos pais. O homem de 52 anos, antes dono de uma lavanderia, um carro e uma casa, hoje trabalha 15 horas por dia como taxista. A mulher é funcionária de um hospital. O terceiro filho, de 23 anos, está preso e tem uma filha de dois meses, abandonada pela mãe. Os avós, com a ajuda de uma tia, cuidam da menininha.

Nos últimos 10 dias, o taxista trocou duas vezes a porta de madeira da casa, arrebentada pelos filhos em crises de abstinência. Ontem, antes que a quebrassem de novo, os libertou para que fossem consumir crack. Apesar da dor e do patrimônio desfeito, o homem mantém a esperança:

– Iremos sorrir juntos de novo
Fonte:Pioneiro/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)