Pesquisa feita em Recife (PE) revela que motociclistas alcoolizados representam 76,75% das vítimas atendidas pelo SAMU

Chega até a ser clichê falar em “perigo sobre duas rodas” em reportagens que tratam de acidentes de trânsito envolvendo motocicletas. Principalmente quando o assunto abordado é a mistura de álcool e guidon. Mas parece que os principais interessados, os motociclistas, ainda não aprenderam a lição. Enquanto nos doze meses que antecederam a aprovação da lei 11.705, a Lei Seca, os motoqueiros representavam 55,77% das vítimas de trânsito alcoolizadas socorridas pelo Samu Recife, no ano seguinte eles foram maioria absoluta: 76,75%.

Os dados são de pesquisa realizada na Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), que constatou redução no número total de acidentes com vítimas alcoolizadas, tanto de motos quanto de automóveis. Mas mostrou que a queda foi bem menos expressiva no primeiro caso do que no segundo. O que elevou os motoqueiros ao primeiro lugar isolado do triste ranking de vítimas de acidentes de trânsito alcoolizadas. As explicações, dizem os pesquisadores, podem estar no aumento da frota de motocicletas e na imprudência de seus condutores.

Os números são do levantamento Acidentes de trânsito pós-Lei Seca: estudo no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) – Recife/PE, realizado como trabalho de conclusão do curso de enfermagem. A pesquisa reuniu dados dos socorros realizados pelo Samu da capital entre junho de 2007 e junho de 2009, referentes à vítimas de acidentes de trânsito, colisões e atropelamentos que haviam ingerido bebida alcoólica.

Entre junho de 2007 e junho de 2008, mês em que a Lei Seca foi aprovada, foram registrados 465 ocorrências desse tipo. Número que sofreu uma queda de 60,21% na comparação com os 12 meses seguintes. Entre julho de 2008 e junho de 2009, o número de ocorrências caiu para 185. Mas enquanto a queda na quantidade de condutores de automóveis alcoolizados socorridos pelo Samu foi de 83,9% (de 87 para 14, em números absolutos), a de motociclistas foi de 43,4% (251 para 142).

Para o diretor de Fiscalização do Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE), Ivan Cunha, a grande expressividade de motociclistas entre as vítimas de trânsito alcoolizadas atendidas pelo Samu Recife no ano seguinte à Lei Seca em relação aos 12 meses que a antecederam pode ter explicação no aumento da participação das motos na frota total de veículos do estado. Segundo Ivan, em 1990, as motos representavam 8,53% (33.381) da frota de Pernambuco. Passaram para 28,08% em 2007 (382.746) e subiram para 32,46% em novembro de 2009 (533.572).

No Recife, existiam 13.414 motos em 1990, o que significava 6,58% da frota da cidade. Em 2007, esse número saltou para 57.858 (13,6%). E só nos dois anos seguintes, até novembro de 2009, sofreu um acréscimo de mais 21.073 unidades, alcançando a marca de 78.931 motos, o que corresponde a 16,3% do total de veículos da capital. Enquanto isso, a representatividade de automóveis na frota da cidade, apesar de ter subido em números absolutos, caiu proporcionalmente de 70,8% para 67,7% do total de veículos.

Desde odia 31 de outubro do ano passado, o segurança de um restaurante e motociclista Marcelo Eduardo da Silva, 39 anos, sofre as consequências da imprudência de outro motoqueiro. Voltava para casa quando colidiu com outra moto, que vinha na contramão e em alta velocidade. Segundo ele, o outro condutor estava alcoolizado e seguia em alta velocidade. “Fui vítima. Não bebo, mas me envolvi em um acidente, sofrendo as consequências causadas por um motociclista que estava alcoolizado”, lamentou. Marcelo Silva fraturou a mão, o fêmur e a tíbia esquerda. Ainda está internado no Hospital da Restauração. O outro motorista, pelo que Marcelo Silva ficou sabendo por familiares, ficou paraplégico e teve sequelas neurológicas.
Autor: Juliana Colares
OBID Fonte: Correio Braziliense