O triste caminho do doping

por Rômulo Alcoforado

A cena se repete continuamente – e tende a ser invariável. Num primeiro momento, o atleta flagrado no exame antidoping se defende, negando firmemente que fez uso de uma substância proibida. Pouco depois, sob os holofotes da mídia e diante da frieza das provas, não resta alternativa ao esportista senão render-se e admitir que, consciente ou inconscientemente, ingeriu – sim – a tal substância. A pena, nestes casos, não costuma ser branda. Tudo bem que dificilmente chega ao banimento da modalidade, mas, em geral, a suspensão varia entre um e dois anos.O episódio mais recente envolveu o jovem atacante Jóbson, do Botafogo. Aos 21 anos, o jogador despontou, pelo misto de habilidade e velocidade, como um dos principais destaques do Campeonato Brasileiro. Seu mundo caiu, porém, quando foi revelado que ele usou crack em mais de uma ocasião. Suspenso por dois anos do futebol e correndo o risco dessa pena ser elevada em mais dois anos, o paraense, que já estava acertado com o Cruzeiro, vê-se diante de uma encruzilhada desesperadora, que atormenta qualquer envolvido em uma situação semelhante: e agora, o que fazer?De acordo com o psiquiatra e antropólogo Moab Duarte, professor adjunto da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), existe o risco de o atleta entrar de cabeça no mundo das substâncias psicoativas, e aponta uma possível solução para o caso. “Essa probabilidade vai depender do nível de maturidade psicológica do atleta e, principalmente, no cuidado terapêutico que ele deve ter. Este cuidado poderá fazê-lo compreender que tem um problema – muitos não admitem – e assumir sua impotência para resolvê-lo, precisando de ajuda profissional”, afirmou.O período de suspensão, no qual o atleta fica privado de exercer a atividade que – na maioria das vezes – é a única que sabe fazer, é perigoso em outro sentido. Como aconteceu com a saltadora Maurren Maggi, afastada do atletismo por dois anos em 2003, há a chance de o esportista com esse problema desenvolver um quadro depressivo. Questionado sobre isso, Moab Duarte foi direto: “Reações como essas podem acontecer e também devem ser tratadas”.Ainda segundo ele, é difícil para um esportista (como para qualquer outra pessoa) livrar-se do vício. “A dependência química é um problema difícil e que apresenta significativa taxa de recaída. O apoio familiar e profissional contribui para adormecer aquele dragão que existe dentro deles”, declarou. Além disso, há o problema da recorrência. “Havendo controle do uso da substância, existe outro risco, a recaída. Então, é difícil de sair por ser fácil entrar ‘nelas’ (drogas) tanto por conta de forças internas (o desejo) como por forças externas (a pressão dos conhecidos que usam)”.
Fonte:Folha de Pernambuco/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)