Punir ou tratar, eis o dilema

Os casos de doping são tratados pelos tribunais esportivos espalhados mundo afora com justa severidade. Não é novidade para ninguém que os atletas de alto rendimento são figuras conhecidas em todo o planeta e sustentam nos ombros a enorme responsabilidade que isso acarreta. Por isso, penas duras – como afastamentos longos e banimento da modalidade – são mais do que naturais. O problema é a outra face da moeda: os esportistas pegos nos exames precisam mais de punição ou de tratamento?Antes de responder à pergunta, é importante lembrar que há dois tipos diferentes de doping. Aquele, mais comum, no qual os atletas usam as chamadas drogas sociais (maconha, cocaína, crack) e o outro, cujo propósito é melhorar o desempenho esportivo. As respostas dos especialistas consultados pela reportagem da Folha de Pernambuco variam conforme a modalidade do doping.No caso do uso para tirar vantagem, a opinião de Cléber Queiroga, fisiologista do Náutico, é igualmente rígida à dos juízes. “Nessa situação, é apenas uma desonestidade, então eu concordo que as punições são mais do que justas. Até porque o esporte não tem nada a ver com doping”, disse.Quando a situação muda, e os atletas são flagrados com drogas como cocaína e crack, por exemplo, o discurso fica mais compreensivo. “Eu acredito que um meio-termo é o ideal. Nem se pode descartar a punição, nem o tratamento. Eu conheço alguns casos de pessoas com problemas relacionados a drogas e posso garantir que é uma doença que precisa de tratamento”, diz o fisiologista do Sport, Inaldo Freire. O psiquiatra e antropólogo da Unicap, Moab Duarte, concorda: “O consumo patológico de substâncias psicoativas é uma doença, como qualquer outra. É justo punir alguém porque está sofrendo de hipertensão arterial? Essa ideia de punição surge do fato de ser uma doença estigmatizada, ou seja, cria-se uma identidade virtual desse paciente como sendo de mau caráter, fraco, mentiroso. Existe, ao contrário, uma necessidade de tratamento especializado”.
Fonte:Folha de Pernambuco/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)