Culpas e desculpas

Três jovens a cada 2 mil francanos buscaram ajuda em 2009 para recuperação de seus vícios com drogas. A informação parece irrelevante, se observada a partir da frieza dos números: os 480 jovens atendidos pelo Conselho Tutelar local representam algo em torno de 0,15% da população francana com seus mais de 300 mil habitantes. Mas quando um desses menores faz parte de sua família, sua vizinhança, seu convívio diário, a situação aparentemente irrelevante passa a ter efeitos catastróficos. O número de 480 jovens francanos que – voluntariamente ou não – estiveram sob a proteção do Conselho tutelar em 2009 praticamente repetiu o resultado de 2008. Não cresceu, mas isso pode não ser motivo de comemoração, mas de preocupação: a estabilidade numérica talvez signifique que mais jovens se embrenharam pelo caminho do vício, e que menos procuraram ajuda.

Preocupante salientar que a maioria desses jovens consumidores de drogas foi flagrada pela polícia ou conselheiros em ambientes públicos – bares, boates e festas – que apenas alguns meses atrás se comprometeram com as autoridades locais no impedimento de menores em seus recintos. Desleixo, desinteresse ou interesses escusos à parte, o fato é que o comprometimento privado ficou apenas na teoria e na palavra vazia.

O conselheiro tutelar Lucas Verzola credita o início do uso de drogas entre crianças e adolescentes às facilidades de acesso ao consumo de álcool e o estímulo ao exemplo de conduta dos pais. A falta de imposição de limites e o desinteresse familiar com os problemas enfrentados pelos filhos agravam a situação, em sua opinião. Filhos sem pais, jovens enfrentando o drama do amadurecimento sem orientação, vida levada sem regras ou limites. Talvez a ação doméstica não impedisse completamente a influência sofrida por essas vítimas sociais em seus círculos de convivência, mas diminuiria em muito, certamente, as chances de que a ignorância juvenil e o experimentalismo desregrado funcionassem como um estopim de uma vida desgraçada pelas drogas.

Por outro lado, se alguns gestores de empresas privadas, bares, boates ou festas particulares não se consideram parte essencial no desencadeamento desses dramas sociais, mesmo após seu comprometimento empírico, talvez não reúnam capacidade bastante para se aventurar como mantenedores de atividades de lazer. Fica fácil, a estes, criticarem os limites e punições estabelecidos pela ação pública, na forma de multas e proibições, depois de implantada a irresponsabilidade e o desinteresse. Cada qual cuidasse da parte que lhe compete e respeitasse o que é definido, não haveria necessidade de tantas leis para controlar os problemas causados.
Fonte:Comércio da Franca/ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)