Primeira clínica pública de reabilitação de SP completa um ano

A primeira clínica pública de internação para adolescentes dependentes de álcool e drogas de São Paulo completou um ano de funcionamento no dia 27 de janeiro com um saldo de 96 jovens atendidos, taxa preliminar de recuperação de 50% e mudanças no projeto original para adaptar as técnicas americanas, nas quais o projeto é baseado, à realidade brasileira.

Uma dessas mudanças inclui a redução do número de leitos para ampliar a estrutura de tratamento especial dos casos mais graves de abstinência. Segundo Pedro Daniel Katz, diretor técnico da clínica e médico psiquiatra do Samaritano, a diferença é que nos Estados Unidos há uma maior prevalência de viciados em maconha, enquanto que, no Brasil, as drogas de maior incidência são a cocaína e o crack.

“No nosso caso, há quadros mais graves de abstinência e por isso precisamos ter uma estrutura física diferente para ter um tratamento clínico mais bem preparado para emergências”, afirma Katz.

Outra mudança é a aceitação de jovens infratores. De acordo com o diretor técnico da clínica, cerca de 90% dos jovens atendidos tiveram algum envolvimento com o tráfico.
À época da inaguração, a nova clínica prometia recuperação em 60% a 70% dos casos, taxa superior às normalmente obtidas no Brasil. Segundo o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), os índices de recuperação não vão além dos 40%.

De acordo com Katz, a taxa de recuperação de 50% obtida até agora na clínica pública é preliminar porque o tratamento completo dura dois anos. “Quando completarmos o primeiro ciclo, em 2011, vamos ter resultados ainda melhores.”
O projeto da clínica é uma parceria do hospital Samaritano com a Secretaria de Estado da Saúde e recebeu investimento inicial de quase R$ 1 milhão. Os recursos para manutenção do projeto são de aproximadamente R$ 1,7 milhão por ano, custeado pelo Samaritano.

A clínica, sediada em Cotia (Grande SP), atende jovens do sexo masculino entre 14 e 18 anos e encaminhados pelas unidades de saúde e conselhos tutelares municipais. Depois de ficarem internados por um período de um a três meses, eles recebem acompanhamento de um grupo multidisciplinar durante dois anos.

O adolescente G., de 16 anos, é um dos 26 adolescentes que atualmente estão em pós-tratamento na clínica. O tratamento partiu da iniciativa dele próprio e da tia, com quem ele mora. G. começou a usar drogas aos dez anos, quando morava com a mãe em uma favela de Guarulhos. Usou maconha, cocaína e crack -esta última, “a que mais derruba”, disse. Depois de roubar e traficar, viu que precisava parar com o vício. “Se eu ficasse na rua, não ia prestar”, conta.
Fonte:Folha de São Paulo – Mariana Versolato – Colaboração para a Folha
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas