Caracterização da cultura de crack na cidade de São Paulo: padrão de uso controlado

Os pesquisadores Lúcio Garcia e Solange Nappo coordenaram um estudo para analisar o perfil sociodemográfico dos usuários de crack na cidade de São Paulo.

Eles realizaram um estudo qualitativo etnográfico, entre os anos de 2004 e 2005, com amostra de usuários e ex-usuários de crack. As respostas obtidas, por meio de uma entrevista estruturada, foram posteriormente categorizadas e interpretadas individualmente.
Historicamente, o primeiro relato de uso de crack na cidade de São Paulo ocorreu em 1989.

Em função dos efeitos do crack, era raro que os usuários consumissem-no uma única vez, prolongando o uso até que se esgotassem física, psíquica ou financeiramente. Em consonância com a realidade norte-americana, o pensamento dos usuários da cidade de São Paulo focava-se no consumo de crack de forma que o sono, a alimentação, o afeto, o senso de responsabilidade e a sobrevivência perdiam o significado.

Embora a situação seja alarmante, nos Estados Unidos tem-se identificado a existência do uso controlado desta droga, caracterizado como um consumo a longo-prazo, não-diário e racional, em que o usuário, por meio de estratégias de autocontrole, não tem permitido que a necessidade pela droga governe sua vida. No Brasil, em princípio, o uso controlado não havia sido detectado. Desta forma, suspeita-se que a cultura de uso tenha sofrido mudanças desde sua primeira descrição, realizada na cidade de São Paulo, há 11 anos.

Na análise dos resultados, observou-se que o perfil predominante do usuário de crack é constituído de homens, jovens, solteiros, de baixa classe socioeconômica, baixo nível de escolaridade e sem vínculos empregatícios formais. O padrão de uso mais freqüentemente citado foi o compulsivo, caracterizado pelo uso múltiplo de drogas e desenvolvimento de atividades ilícitas em troca de crack ou dinheiro. Entretanto, identificou-se o uso controlado que consiste no uso não-diário de crack, mediado por fatores individuais, desenvolvidos intuitivamente pelo usuário e semelhantes, em natureza, às estratégias adotadas por ex-usuários para o alcance do estado de abstinência.

Os pesquisadores concluíram então que a cultura do uso de crack tem sofrido mudanças quanto ao padrão de uso. Embora a maioria dos usuários o faça de forma compulsiva, observou-se a existência do uso controlado, que merece maior detalhamento, principalmente quanto às estratégias adotadas para seu alcance.

Rev. Saúde Pública v.42 n.4 São Paulo ago. 2008 Epub 11-Jul-2008
doi: 10.1590/S0034-89102008005000039
Autor: Lúcio Garcia de Oliveira e Solange Aparecida Nappo
OBID Fonte: Revista de Saúde Pública