Programa para egresso da cracolândia trabalha o conceito de “refugiados”

Marcelinho era um dos tripés do Trio Calafrio. Os garotos ganharam o apelido por aterrorizar o centro da cidade, depois de horas fumando pedras de crack. Chutavam latas de lixo, roubavam, agrediam. Tudo aos 11 anos de idade.

Não à toa Marcelinho é um dos mais citados pelos educadores do Quixote como caso emblemático do trabalho do grupo. Foram anos de relação muito conturbada. Até que, um dia, Marcelinho decidiu convidar a mãe para ir à unidade da Praça da República. “Só que ela não sabia nem andar de ônibus”, lembra Cecilia Motta, coordenadora do Moinho República, onde está o Refugiados Urbanos, projeto específico do Quixote para a cracolândia. “Trabalhamos com o conceito de refugiados, porque pensamos que essa seja a verdadeira condição desses jovens. Eles fogem de uma situação de vulnerabilidade”, diz Cecilia.

Então, o garoto passou a buscar a mãe. De vez em quando, dormia um dia da semana por lá. Hoje, aos 15 anos, está estudando e com aparelho nos dentes. “Este é um dos primeiros sinais de recuperação da dignidade”, explica Cecilia. “A mãe começa a passar batom e a criança a cuidar da higiene.”

O braço do Quixote na cracolândia nasceu na Rua Mauá, em 2003. Mudou-se para a Praça da República graças a uma parceria com o Banco Real. “Funcionamos como um consulado. Tem mãe que vem procurar o filho, filho que procura a mãe, tem de tudo”, diz a coordenadora. Ela avalia que, embora o número de adultos moradores de rua tenha aumentado no centro, o número de crianças permanece estável. “Cerca de 200 que moram ali mesmo. O resto vem alguns dias, procurando aventuras.”

No “consulado” do Quixote, são 300 crianças e adolescentes atendidos por mês – o atendimento continua depois do rematriamento (recuperação do vínculo familiar) “Não há receita de bolo para tirar criança da rua. O trabalho é individual e a dedicação tem de ser por anos.”
Autor: Metrópole
OBID Fonte: O Estado de São Paulo-SP