Entrevista com Maristela Monteiro – Dependência Química

Assessora regional para álcool e drogas da Organização Pan-Americana de Saúde há mais de seis anos, Maristela Monteiro falou ao Boletim Abead sobre seu trabalho, os problemas enfrentados na área de dependência química no continente, as estratégias utilizadas pela Opas e as políticas públicas no Brasil. Confira!

Como a senhora começou seu trabalho na Organização Pan-Americana da Saúde?
Meu trabalho começou na Organização Mundial da Saúde, em 1994, quando fui convidada para ser consultora em um projeto sobre solventes voláteis. A consultoria foi logo modificada para um contrato temporário (11 meses) e depois houve concurso para um posto na área de tratamento, para o qual me candidatei e fui selecionada em 1996. Em 2003, por razões familiares, solicitei uma transferência para a Opas, pela sua localização nos EUA, de onde vem meu marido… O cargo de assessora regional para álcool e drogas estava aberto e eu tinha a posição de coordenadora do programa de drogas na OMS, sendo assim as mesmas funções que eu já exercia, só que a nível regional e não global. Comecei em 1º Dezembro de 2003.

Quais são as principais atribuições da equipe que coordena? Atualmente, a atuação está focada em que área?
Trabalhamos dando apoio técnico aos países (Ministérios da Saúde) sobre temas relacionados a álcool e drogas. As atividades são variadas e dependem da realidade dos países e da região como um todo – apoio para a formulação de políticas públicas, apoio para a capacitação do setor saúde, apoio com informação epidemiológica e cientifica, pesquisa, colaborações com centros acreditados como sendo centros colaboradores da OMS/Opas, preparação de documentos, tradução e disseminação, etc. Isto tanto para álcool como para drogas ilícitas. Coordeno as atividades do programa de tabaco também, mas de forma mais administrativa que técnica, já que existe uma assessora regional só para tabaco, e uma equipe dedicada às atividades deste programa.

Qual sua opinião sobre as políticas públicas de saúde para dependência química no Brasil?
As políticas do Brasil têm progredido e melhorado, especialmente se consideramos que a dependência química também é uma enfermidade mental, e, portanto a reforma psiquiátrica, de maneira geral, deve beneficiar aqueles com dependência, que queiram tratamento. O SUS é uma porta de entrada fundamental para o acesso aos serviços públicos, gratuitos, e devem integrar a identificação precoce, intervenção breve, tratamento, reabilitação, redução de danos, integração com outros serviços, tais como para o tratamento geral da saúde (patologias gerais, HIV/AIDS, etc.), na comunidade sempre que possível. Acho que o Brasil está dando alguns passos fundamentais nesta direção e pode melhorar, mas sabemos que leva tempo e existem barreiras que precisam ser ultrapassadas.

Como a Opas atua diante das grandes diferenças de estrutura e de políticas que existem entre os países do continente?
Através do consenso, diálogo, tentando encontrar os pontos comuns em que todos podem trabalhar. A saúde é fundamental para o desenvolvimento e é também um direito de todos. Assim, com esta visão, pode-se conseguir alianças para trabalhar colaborativamente. Cada país sempre tem que adaptar as resoluções dos conselhos diretivos (assembleia dos Ministros) para a realidade local, nacional. Os pontos críticos são consensuados com uma resolução, mas obviamente existirão diferenças nos processos de implementação das políticas e nos programas, entre outras coisas.

Existem semelhanças entre os problemas enfrentados?
Obviamente. Os problemas com o consumo excessivo de álcool são comuns a todos, mesmo que a dimensão dos mesmos varie. O consumo de drogas ilícitas é mais variável, mas a maconha ainda é a mais utilizada em praticamente todos os países. O estigma que o uso de drogas gera parece ser comum também, criando barreiras para o acesso a serviços e tratamentos. Faltam dados críticos para a tomada de decisões e alocação de recursos na maioria dos países. Os sistemas de saúde são ainda pouco responsivos à gama de problemas do uso indevido de drogas e álcool. Há muito que melhorar: capacitar os profissionais, modificar os currículos dos cursos de formação em saúde, entre outras coisas. Acho que tenho trabalho suficiente até me aposentar!
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)