A cada dia, três novos dependentes

Os pacientes em tratamento do crack são homens e mulheres que conheceram as pedras depois de desenvolver dependências químicas relacionadas a outras drogas. A maioria nasceu em famílias de baixa renda, mas, de uns tempos para cá, a substância derivada da cocaína não faz mais distinção de classes. Por conta do uso da substância de alto poder de destruição, essas pessoas reúnem uma série de distúrbios, como perda de memória, oscilação de humor e dificuldade em manter laços afetivos. São hoje tratados por profissionais da saúde mental. E não mais exclusivamente como problema de segurança pública.

O perfil é traçado por especialistas envolvidos no atendimento a dependentes de crack na capital do país. Para a enfermeira Sônia Mochiutti, gerente do Centro de Assistência Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas (CAPSad), do Guará, preocupam os males que cercam a droga. “O crack oferece uma sensação plena de prazer, mas que acaba rápido. Logo em seguida, o usuário fica depressivo e vai em busca de mais droga. Assim, o barato se torna caro. É aí que ele se prostitui, rouba e comete os mais diversos crimes”, afirmou. Cada pedra custa de R$ 5 a R$ 10.

O CAPSad do Guará concentra a maioria dos atendimentos a dependentes químicos realizados no DF. Recebe, por dia, três novos casos. Balanço divulgado no início do ano também revelou que, de cada 10 pacientes recém-chegados, seis têm relação com a substância derivada da cocaína. “Os dependentes em álcool ainda lideram as nossas estatísticas, mas é absurda a quantidade de pacientes que passaram para o crack. Se Brasília não fizer alguma coisa para conter esse avanço logo, a situação ficará muito ruim”, alertou Sônia.

Os CAPSad recebem pacientes encaminhados por familiares e conhecidos. Não têm estrutura para recolher e assistir os andarilhos que vagam por Brasília, principalmente na área central do Plano Piloto. Um novo projeto da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, no entanto, deve reformular e reforçar a forma de assistência. Por meio do Núcleo de Acolhimento aos Usuários de Álcool e Drogas (Nauad), o Rua da Vida vai atacar o problema do ponto de vista da saúde pública e diretamente na parcela da população moradora de rua.

O projeto será colocado em prática a partir de março. Equipes formadas por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e redutores de danos sairão às ruas do DF para oferecer atendimento especial aos dependentes químicos sem qualquer tipo de amparo. “Vamos atuar durante as madrugadas e com foco na atenção básica e nas drogas. Obviamente, o crack terá uma importância grande nesse trabalho. O primeiro passo será estabelecer vínculos com essas pessoas e dar a chance de uma reabilitação”, explicou a coordenadora do Nauad e do Rua da Vida, Maria do Socorro Paiva Garrido.

O programa será realizado em parceria com servidores da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do DF (Sedest), da Secretaria de Saúde do DF, da Vara da Infância e da Juventude (VIJ) e da Polícia Civil. Começará pela zona central do Plano Piloto. Somada às asas Sul e Norte, a região concentra 85% dos moradores de rua da capital do país. Os profissionais envolvidos no projeto passam por treinamento e capacitação. Alguns têm experiência nesse tipo de serviço. Cumprirão 20 horas por semana.

Mais unidades

O Rua da Vida também prevê o encaminhamento desses pacientes às unidades do CAPSad no DF. Para tanto, a rede será ampliada. A do Guará tem mais de 6 mil pacientes cadastrados e não recebe mais casos do Entorno. Está superlotada. A quantidade de atendimento atingiu o dobro do registrado nos últimos três anos. Parte do trabalho é dividido com as unidades de Sobradinho e de Ceilândia — a última está em fase final de implantação. O Governo do Distrito Federal (GDF) construirá centros em Santa Maria, no Gama e em Planaltina até o fim do ano.

Por enquanto, a capital do país desrespeita determinação do Ministério da Saúde. Uma norma do órgão estabelece que localidades com mais de 100 mil habitantes deveriam implantar pelo menos uma unidade especializada em atendimento a dependentes químicos. Boa parte dos pacientes viciados em crack chegam aos CAPSad a partir de hospitais da rede pública de saúde. Dão entrada nos centros clínicos subnutridos, desidratados e com queimaduras nos dedos e na boca. Às vezes, aparecem com surtos psicóticos.

Estratégia
A redução de danos é uma estratégia da saúde pública voltada para diminuir os males à saúde em consequência de práticas de risco. A Portaria nº 1.028, de 2005, estabelece diretrizes, que orientam a implantação das ações e subsidiam municípios e estados na manutenção ou implantação de iniciativa voltadas para usuários de drogas. Tem sido usada como política prioritária do Ministério da Saúde.

Onde buscar ajuda
CAPSad, no Guará (público):
3567-1967
CAPSad, em Sobradinho (público):
3591-2779
Centro de Reintegração
Deus Proverá, em
Planaltina (filantrópica):
9674-8748
Força Para Vencer, em Águas Lindas (GO) (particular):
3581-8089

Como denunciar
Polícia Militar: 190
Polícia Civil: 197
Autor: Guilherme Goulart
OBID Fonte: Correio Braziliense